Dia 30 de janeiro é o dia do Quadrinho Nacional. Nada mais natural que, neste dia, eu passe o dia inteiro produzindo novas histórias. No caso, três. Pela manhã, eu e o Bá trabalhamos um pouco mais na nossa adaptação para o livro Dois Irmãos, do Milton Hatoum. A maioria das nossas manhãs é povoada pelos personagens manauaras dessa história de dois irmãos gêmeos.
À tarde, enquanto o Bá desenhava mais páginas do Casanova, eu escrevia um email para um dos nossos editores gringos com as ideias que tivemos no final de semana em relação a um dos nossos novos projetos. Depois de uma semana colocando ideias no papel, vi como é sempre melhor poder visualizar seus projetos ao invés de trabalhar tudo somente dentro da cabeça. As ideias vem e vão de maneira melhor e mais rápida no papel, e hoje parece que andamos mais do que em meses de conversas e pensamentos.
Depois de mandado o email, voltei ao roteiro de outro dos nossos projetos. Este roteiro já está bem encaminhado, o trabalho agora é descrever a acão, separar as imagens, essa tarefa ingrata de quem está escrevendo um roteiro para si mesmo. Queria poder só escrever os diálogos e deixar todo o resto para a hora de desenhar, mas sei que, no esquema que produzimos hoje em dia, o roteiro também serve para informar o editor, com quem discutimos possíveis alterações, dúvidas e melhorias, e serve também para orientar o colorista e o letrista.
Isso foi hoje. E amanhã?
Amanhã estaremos em Brasília.
A partir das 19:30h, vamos participar de um bate-papo no "Palco Iguatemi", no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura do Shopping Iguatemi Brasília (SHIN CA 4, Lote A, Lago Norte). Haverá uma sessão de autógrafos depois do blá blá blá. Apareçam.
Cada artista tem um estilo, definido pelas escolhas que ele faz pra traduzir o mundo real em traços, manchas, borrões no papel. São os truques, as gírias, a mágica. E o estilo de um artista também influencia as ferramentas que ele vai usar. Cada ferramenta nos dá um resultado diferente e depende do artista saber qual lhe agrada mais e combina mais com seu estilo.
Já usei bico de pena e pincel, vendo o que outros artistas usavam e achando que eram a regra, mas depois descobri artistas que usavam canetas e seus estilos eram mais próximos do que eu buscava.
Aqui vão todas as ferramentas que eu posso usar nas minhas páginas, enquanto desenho.
- lápis Faber-Castell 2B, borracha Staedtler Mars Plastic. Faço todos meus rascunhos e desenhos iniciais com este lápis. - caneta Sakura Pen-Touch White fine point, caneta Uni-Ball Signo 0.7 white. Uso para fazer detalhes em branco, como estrelas, relâmpagos. Durante anos usava pincel e guache pra fazer os detalhes em branco, antes de encontrar estas canetas.
- Sharpie fine point marker. Uso principalmente pra assinar livros, mas também uso em rascunhos, em bordas da tira, em desenhos soltos. Não tem um evento que eu vá sem uma caneta dessas no bolso. - canetas Staedlter pigment liner sizes 0.3, 0.5, 0.8. Estas são as canetas que eu uso pra fazer arte-final. - caneta Faber Castell PITT artist Brush, caneta Sakura PIGMA GRAPHIC 1. Estas duas canetas eu uso prar desenhos grandes, figuras que estejam no primeiro plano. As pontas são mais maleáveis e dão um traço mais imperfeito e orgânico.
A mais difícil de achar no Brasil é a Sakura PIGMA GRAPHIC 1. O resto, comprei tudo por aqui, em papelarias como a Casa do Artista ou Pintar aqui em São Paulo.
Estas são minhas ferramentas, a escolha que eu fiz para ter meu esilo, para obter o resultado que eu quero nos meus desenhos. Mas é a minha escolha. Vejam que o Fábio faz toda a arte final com um único pincel, Windsor & Newton series 7 nº2, enquanto eu uso 4 ou 5 canetas.
As ferramentas não fazem nada sozinhas (isso também serve pro computador, para todos que acreditam que um programa de desenho vai entregar tudo pronto, ou que saber usar o photoshop já garante que você saiba colorir). Pesquise seu artista preferido, veja quais ferramentas ele usa, pense qual é o estilo que você busca, estude e desenhe muito.
São Paulo é a nossa cidade, nossa casa. É um universo, são muitos, e pode ser também uma vila. São Paulo é um problema, mas também soluções. São Paulo é cenário e também personagem.
Hoje, na TV Cultura, o programa Metrópolis fará uma edição especial sobre os 458 anos de São Paulo, com entradas ao vivo e algumas matérias especiais, entre elas um passeio conosco por alguns cenários da cidade que aparecem no Daytripper. O programa vai ao ar às 20h.
Hoje também tem mais uma apresentação do espetáculo Sinfonia Paulistana - Um novo olhar, uma releitura da sinfonia completa de Billy Blanco sobre a cidade de São Paulo, com participação especial do cantor e violonista Billynho Blanco, filho do homenageado, e dos músicos André Abujamra, Blubell, Karina Zeviani, Laura Lavieri, Marcelo Jeneci, Skowa, João Erbetta, Regis Damasceno, Estevan Sinkovitz, Dustan Gallas, Guilherme Kastrup e Richard Ribeiro. A imagem deste texto eu fiz para o pôster deste espetáculo. Será no Teatro do SESI (Av. Paulista, 1.313, metrô Trianon-Masp), às 20:30h e é de graça (456 lugares, retirada de ingresso a partir das 12h do dia do concerto). Informações: (11) 3146-7405 / 7406
Ano passado, fomos convidados a dar uma palestra no evento TEDxorganizado pela FIAP, tendo como tema Empreendedores do Futuro, pra falar um pouco da nossa carreira e como conseguimos tornar realidade nosso sonho de fazer Histórias em Quadrinhos.
Mesmo antes da virada do ano, debaixo da chuva que tomou conta não só do litoral, como de várias partes do país, antes dos fogos que vi meio escondidos pelo guarda-sol que eu estava usando de guarda-chuva, antes de pular sete ondas e jogas minhas flores para Iemanjá, eu já me sentia revigorado, entusiasmado e esperançoso pelo ano novo, por cada novo dia e por cada nova história. Como é bom poder parar um pouco, como inspira ler um bom livro (desses, li Diário da Queda, do Michel Laub, e A Cidade Ilhada, do Milton Hatoum), ou como simplesmente descansar o olhar num horizonte azul tom sobre tom de céu e mar traz paz, ainda que numa praia cheia de gente, das crianças correndo atrás delas mesmas aos vendedores de alimentos, bebidas, chapéus e outras tranqueiras da praia moderna. Para os momentos em que a praia parecia moderna demais, bastava mergulhar a cabeça na água, ainda transparente, e me perder no ritmo submerso de um mundo que arde nos olhos, ou talvez apenas mergulhar em algum outro livro dos tantos que eu levei para tirar meu eterno atraso com a leitura.
Se eu terminei o ano pensando no que já fiz e nas histórias que já contei, nas histórias que já vivi, entrei o ano pensando em tudo que ainda há para se fazer, descobrir, viver, explorar e colocar no papel em traços e palavras que estão aí para seduzir o leitor desavisado (e o avisado também). Entrei o ano olhando para frente, pronto para a aventura.
Todo começo de ano, tento desenhar mais no meu tempo livre, um desenhar mais solto, descompromissado, para não deixar minha mão dormir, não esquecer como se pensa em traços, praticando com gosto como se pratica uma língua estrangeira cuja sonoridade você gosta de ficar sussurando bem baixinho quando está sozinho, no carro, no banho, na cama. Não que eu desenhe em todos esses lugares, mas o desenho, principalmente nesses começos de ano em que eu tenho vontade de registrar tudo, parece me acompanhar por lugares às vezes distantes da habitual prancheta onde ficam na maioria das vezes confinados. Ao mesmo tempo, sei que não vou me tornar um desses desenhistas compulsivos que, em qualquer lugar, desandam a desenhar em seus cadernos ou toalhas de mesa de papel. Nem tenho talento para isso, fico prestando atenção demais no que vejo e ouço para mergulhar por completo no caderno, ou não consigo desenhar "no piloto automático" enquanto faço tudo o que, em público, me ocupa e preenche o meu jeito de ser. Mesmo assim, quando vejo páginas de cadernos de rascunhos de alguns amigos meus, como essas páginas do Cyril Pedrosa ou essa do caderno do Braga, aí eu penso em desenhar o tempo todo, transformando minha mão e meu caderno na minha máquina fotográfica, no meu Instagram manual. Logo, logo, quando mais páginas de roteiro estiverem escritas e desenhar as páginas de quadrinhos for tomando mais e mais horas do meu dia, tenho certeza que meus cadernos vão voltar a sua condição de coadjuvantes, mais para figurantes eventuais, da minha produção artística, mas por enquanto, nesse começo de ano super empolgado, cheio de energia e curiosidade pelo mundo, ainda abro o caderno e, simplesmente pelo prazer de desenhar, faço uns rabiscos como os do desenho abaixo.
Dia 31 de Janeiro, eu e o Bá teremos nosso primeiro evento do ano. Viajamos logo cedo para Brasília para, a partir das 19:30h, participar de um bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria Cultura no Shopping Iguatemi (SHIN CA 4, Lote A, Lago Norte). Se você estiver por perto - embora nada em Brasília seja realmente perto - apareça e participe. Não sei quando vamos voltar para nossa Capital Federal depois disso mas, se nossos planos de intensificar a produção cuntinuarem do jeito que estão, não será tão cedo.
Essa semana li essa entrevista com o Jeff Smith. Está em inglês, já recomendei no twitter, mas aqui fica mais fácil de achar. Depois de um ótimo ano de 2011 para o quadrinista independente nacional, acho bom poder ler uma entrevista bem feita falando do processo criativo, das estratégias de mercado, das dificuldades do independente e do mercado e de como o autor independente mais bem sucedido do mercado americano vê tudo isso, sua própria história e a de como os quadrinhos mudaram em 20 anos, e o que ele planeja para se manter atual criativa e mercadologicamente, e a partir de uma entrevista como essa pensar o que nós, enquanto artistas independentes do mercado brasileiro, podemos aprender com isso e como podemos planejar o nosso futuro para que continue crescendo. Outro artista independente americano que eu admiro, o Terry Moore, um dia colocou pelo twitter (e depois recolocou no seu blog) algumas considerações sobre como ele vê as possibilidades e desafios dos quadrinhos digitais. Também em inglês, vale a lida para refletir um pouco.