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Dia da Mulher

Todo dia eu agradeço às mulheres da minha vida por me ajudarem a ser um ser humano melhor. (alguns homens ajudam, também)

Ainda assim, fiz esse desenho hoje, no Cintiq, para começar esse dia agradecendo uma vez mais.



Escrito por Fabio Moon às 11h09
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100 anos de Will Eisner

Hoje, Will Eisner completaria 100 anos.  Ele é um dos quadrinistas mais importantes da história da nona arte mundial, e influenciou gerações com suas histórias e com seus livros sobre a arte de fazer Quadrinhos. O site Omelete colocou online diversos artigos falando da importância de Eisner, e publicou uma galeria de quadrinistas nacionais prestando homenagem ao artista cujo nome é sinônimo de excelência (e que não por acaso batizou o maior prêmio de Quadrinhos do mercado americano, o Eisner Award).

Eu e o Bá fizemos este dois desenhos especialmente para a ocasião.

O Bá retratou os personagens fantasmas de O Edifício, primeira história do Will Eisner que lemos e que nos marcou muito.

Eu resolvi desenhar o personagem mais famoso de Eisner, o Spirit, mas enquanto pensava na pose, no terno, no chapéu, fiquei pensando que, se Eisner fosse criar o Spirit nos dias de hoje, para os dias de hoje, talvez esse espírito do tempo fosse uma mulher. Por que não?

Conhecer o trabalho de Will Eisner é um bem que você faz para você mesmo e, se você quer fazer Quadrinhos, é leitura obrigatória para todo contador de histórias.



Escrito por Fabio Moon às 16h00
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Um quadrinho por dia.

Sempre que nos perguntam sobre alguma dica para quem quer entrar ou melhorar na profissão, uma das que valem para qualquer momento é: você precisa praticar sempre. Se você quer escrever, precisa escrever um pouco todos os dias. Se você quer desenhar, precisa desenhar um pouco todos os dias. Do mesmo modo que o jogador de futebol precisa treinar todos os dias, você também precisa exercitar seus músculos: os da mão, e seu músculo criativo, o cérebro. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é que, enquanto estou escrevendo uma história, fico com aquela sensação de que não estou fazendo nada, de que não estou trabalhando, simplesmente porque escrever não é tão físico quanto desenhar. Muito do escrever está no pensar, em montar a frase dentro da cabeça para depois colocar no papel, e essa falta de um rabisco e de um rascunho visível me deixa esse sentimento falso de que estou inerte e inútil durante a maior parte do dia.

Esses dois pontos me motivam a manter cadernos de rascunho por perto, a rabiscar pessoas, cenários, situações ou mesmo movimentos abstratos, o rabiscar por rabiscar, para que eu tenha um registro físico e visível do que eu fiz naquele dia, naquela semana, naquele mês. Também existe o prazer do desenho sem compromisso, sem prazo, sem cliente e sem propósito outro que não o de colocar traços e cores no papel. O desenhar por prazer talvez seja o ponto mais importante de manter o caderno de rascunho (que não precisa nem ser um caderno).

Hoje comecei um exercício narrativo no caderno de rascunhos. A ideia é desenhar um quadrinho por dia e, quadro a quadro, ir montando uma história. 

Vou colocando o passo-a-passo instantâneo no twitter, no facebook e no instagram. Para o blog, quero colocar um making of um pouco mais detalhado, contando um pouco das inspirações por trás de cada quadro. Uma história para cada pedaço da história.

Vamos ver no que que dá.

 



Escrito por Fabio Moon às 21h28
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Paco

O Bá tem um cachorro que se chama Paco. Para não ficar sozinho em casa durante o dia, ele vem junto com o Bá para o estúdio durante a semana, e divide com as histórias e os desenhos a nossa atenção diária.



Escrito por Fabio Moon às 16h44
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Um longo dia do Quadrinho Nacional

Hoje é comemorado o Dia do Quadrinho Nacional, mas este post começa no sábado, enquanto eu e o Bá trabalhávamos. Meu telefone fez o barulho de mensagem recebida e fui checar. Era o Michele, editor da Bao, nossa editora italiana. Na mensagem, um vídeo do Michele, em pleno Festival Internacional de Angoulême (maior festival de Quadrinhos da Europa), juntamente com o François, nosso editor francês na Urban Comics. Aparentemente, ambos estavam reunidos naquele sábado frio para discutir o nosso futuro. "Planos estão sendo feitos", eles disseram, sorrindo, transbordando mistério.

Pegamos o celular e fizemos um vídeo de resposta, transmitindo nossa ansiedade e, de quebra, dando um pouco do sabor tropical àquele dia de inverno no festival francês. Enquanto em Angoulême fazia 9ºC, em São Paulo o verão nos presenteava com 30ºC no meio do dia.

 

Mas vamos voltar para o Quadrinho Nacional. Recebi duas mensagens pelo facebook no final de semana. A primeira, do site Meninas Geek, era um pedido para falar um pouco mais sobre a capa que eu fiz para a revista do Adventura Time. Direcionei as meninas para um site americano que tinha feito a mesma pergunta, onde eu mostrava os rascunhos feitos antes da capa, e respondi duas perguntinhas mais. O resultado você confere aqui.

A segunda mensagem foi do Érico Assis, jornalista e tradutor de Quadrinhos, perguntando no que eu trabalharia no dia de hoje, para uma matéria que ele estava fazendo sobre o Quadrinho Nacional. Respondi:

"Oi Érico. Estou escrevendo uma história, trabalho nela no período da manhã. À tarde, tenho um roteiro de uma HQ para desenhar. Amanhã, provavelmente só lerei o roteiro e farei anotações sobre o layout das páginas. Tenho um bate-papo às 19h com o Bá e o Rafa Coutinho na livraria Tapera Taperá, no centro, com mediação do André Conti, para celebrar o dia do Quadrinho Nacional. Depois da palestra, faremos sessão de autógrafos."

Dia cheio.

O Rafa vai lançar um livro novo este ano, o Mensur. Espero que ele fale um pouco sobre ele no bate-papo. O Bá e eu lançaremos este ano a versão brasileira do nosso livro com o Neil Gaiman, o How to Talk to Girls at Parties (ainda precisamos decidir como será o título final em português). Os detalhes sobre o bate-papo podem ser encontrados aqui.

Falando em Neil Gaiman, seu livro mais aclamado, o Deuses Americanos, que está prestes a virar série de TV, vai também virar uma série em Quadrinhos. O site the Hollywood Reporter tem uma prévia de mais de 10 páginas no primeiro número, além de divulgar com exclusividade a capa variante que eu fiz para essa edição. Você pode ver as páginas, e a capa, clicando aqui.

Aos que estão em São Paulo e pretendem ir ao bate-papo, até mais tarde. Para o resto, a pergunta que o Érico fez: No que você vai trabalhar hoje, no Dia do Quadrinho Nacional?



Escrito por Fabio Moon às 09h26
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Premiações, publicações, inscrições, evoluções.

Uma das maneiras de dar mais visibilidade ao seu trabalho é ganhando prêmios. Eles não são um atestado de qualidade, não representam a verdade universal, mas ajudam a destacar seu trabalho dentre tantos outros. O mercado Nacional de Quadrinhos é pequeno e atinge pouca gente, mas quando uma publicação é indicada ou vence um prêmio, geralmente é gerada uma atenção maior sobre ela, um interesse da imprensa, do público. Uma fagulha de curiosidade que pode resultar em novos leitores, assim como também ajuda a mostrar o seu trabalho aos colegas de profissão, que podem não conhecê-lo. Um prêmio não deixará seus próximos trabalhos mais fáceis, mas ajudará o seu caminho, como um carimbo no passaporte dessa viagem que nos leva a vida inteira.

Neste sábado, dia 28 de Janeiro, acontecerá a entrega do Troféu Angelo Agostini. O evento acontece no Memorial da América Latina, Auditório da Biblioteca Latino-americana - Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 (ao lado do Metrô Barra Funda), tem entrada franca e começa às 13h, com uma programação cheia de palestras e debates. A entrega dos prêmios será às 16h. Os premiados foram:

Melhor desenhista: Mariana Cagnin ("Black Silence")

Melhor roteirista: Alex Mir ("Segundo tempo", editora Draco)

Melhor cartunista: Guabiras (Jornal O povo - Fortaleza CE)

Melhor lançamento: "Spectrus, paralisia do sono" (Thiago Spyked, Ed. Crás)

Melhor lançamento independente: "Protocolo, a ordem" (vários autores)

Melhor WEB Quadrinho: "Marco e seus amigos" (Tako X e Alessandra Freitas)

Melhor Fanzine: "Café ilustrado" (Thina Curtis e Fabi Menassi)

Prêmio Jayme Cortez: Ivan Freitas Da Costa (Chiaroscuro Studios)

Mestres: Arthur Garcia, Gualberto Costa, Sérgio Graciano e Sidnei L. Salustre

O Angelo Agostini é um prêmio controverso, com votação aberta ao público, onde alguns acreditam que os vencedores são simplesmente aqueles que fizeram mais campanha entre os amigos, independente de sua real qualidade ou mérito. Todos os anos ele traz surpresas, rostos novos e trabalhos que muita gente nem viu (sendo este um problema do nosso mercado fraco e rarefeito). Independente da sua opinião sobre o prêmio, ele é um dos mais tradicionais e traz, sim, um retrato da produção de Quadrinhos no Brasil.

E 2017 traz mudanças no outro grande prêmio do Quadrinho Nacional, o HQ MIX. Esse ano, para concorrer ao 29º Troféu HQMIX, as editoras, autores e produtores de quadrinhos no Brasil deverão inscrever suas obras no site da premiação, de acordo com as categorias, no período de 16 de Janeiro a 28 de Fevereiro. Junto com a inscrição, deve-se enviar um PDF com a história ou tese (ou fotos e descrição de um evento, no caso de exposição), para garantir que a comissão julgadora veja seu trabalho. Com isso espera-se acabar com os problemas de divulgação e relevância de uma escolha de candidatos sem o real conhecimento de todos os trabalhos produzidos. Fica então a cargo dos autores e editoras se mobilizarem para que sua publicação chegue à organização do prêmio para poder ser indicada.

Há um desconto progressivo para grupo de inscrições de uma só entidade:

Até 5 inscrições – R$ 15,00 cada

De 6 a 10 inscrições – R$ 12,00 cada

Acima de 10 inscrições – R$ 10,00 cada

O pagamento poderá ser realizado através de PayPal ou PagSeguro. Ao final da inscrição, um email com o seu número de inscrição e instruções sobre o pagamento será enviado.

Sim. É isso mesmo. Você paga pra inscrever seu livro, assim como muitas outras premiações e festivais competitivos. Essa outra novidade dá um peso maior à inscrição, exige maior comprometimento por parte dos autores e editoras e também ajuda a financiar o prêmio, que é feito a duras penas pelos organizadores, com pouquíssimo patrocínio. 

Todas as dúvidas e informações sobre as inscrições e categorias do HQMIX podem ser encontradas no site da premiação.

 



Escrito por Gabriel Bá às 16h32
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Capas e máscaras

Estou aqui pensando em máscaras , o que elas representam, o que encobrem e o que revelam. Costumávamos refletir sobre as máscaras que às vezes usamos quando estamos entre as outras pessoas, quando queremos tentar prever, ou controlar – ou até manipular – a impressão que as pessoas tem de nos conhecer pessoalmente. Nos dias de hoje, as máscaras do dia-a-dia se multiplicaram e nos deparamos também com as máscaras que usamos no âmbito virtual. A internet abriu uma segunda chance para as pessoas interagirem, se comunicarem, e ao invés de revelar o verdadeiro lado das pessoas, que costumava ficar escondido, o que a internet tem criado é apenas mais um lugar onde podemos usar mais máscaras para tentar pre-definir a impressão que as pessoas terão de nós. Se a máscara acabava nos distanciando uns dos outros, nos afastando da nossa essência, nada mais adequado do que a internet, onde a distância é o ponto de partida.

Minha arte é a minha máscara. Ela é a cara que eu mostro ao mundo, nela estão o que eu penso, o que eu sinto, ela é o registro das minhas ações.

Essa máscara é a capa de um novo caderno, que marca o início – início físico, ao menos, pois esse projeto já começou há alguns anos – de uma nova história. O caderno, para a escrita do estudo, das ideias e do texto final, veio com uma capa vagabunda. É um caderno vagabundo, o mais barato que tinha na papelaria. O importante era o número de páginas – muitas –, não a qualidade da embalagem. Ainda assim, colei uma folha em branco na capa para diferenciar esse caderno dos outros, e aproveitei restos de tintas que ainda repousavam no godê ao lado da minha mesa, de uma pintura que terminei essa semana, para dar ao caderno uma cara mais apropriada ao novo projeto.

Pensei nas máscaras, e pronto. Nos Quadrinhos, a capa é a máscara do objeto físico. Ela nos olha nos olhos, nos seduz e nos convida para dançar.

A capa abre essa janela para dois lados de dentro: o de dentro da história, e à algo onde essa história se reflete dentro das pessoas, dos leitores.

 

- - -

 

Fiz uma capa para uma edição especial dos Quadrinhos do Adventure Time, numa parceria entre a Boom Studios ( editora que publica os Quadrinhos nos EUA) e a Comixology ( plataforma de leitura digital de quadrinhos mais utilizada por lá) para promover uma linha de conteúdo produzida originalmente para a plataforma digital exclusiva para o Kindle. Quando recebi o convite, não sabia nada sobre as histórias, sobre a exclusividade digital, sobre quando a edição seria lançada. Sabia somente que o foco seria nesse vampiro músico Marshall Lee. Tinha acabado de ver um episódio do desenho animado focado nele na semana em que fiz a capa, então já estava em sintonia.

A aventuria então começou.

Nunca sabemos para onde o nosso trabalho pode nos levar. Essa capa quase me levou para a França, para a edição deste ano do Festival de Quadrinhos de Angoulême (que acontece agora, no final do mês).

Quase.

O volume de trabalho deste mês, incluindo o projeto do novo caderno, e outros que também caminham em ritmos próprios, falou mais alto. São máscaras mais apropriadas para como eu quero que meu ano comece.

Ainda assim, alguns dias acordo com saudades do festival de Angoulême, dos Quadrinhos que só descubro por lá, e de falar francês, mas eu sei que tudo isso vai continuar lá, me esperando para quando as histórias me levarem de volta. Un jour.


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Mais uma capa.

Semana passada, peguei uma capa para fazer, uma versão variante exclusiva a uma loja de gibis (nos mercado americano, algumas lojas fazem acordos com as editoras para terem uma capa diferente da regular) para o primeiro número de uma nova série. Recebi os pdf das primeiras duas edições da história, para entrar no clima, embora essa história eu já conheça bem. Fiz alguns rascunhos, mandei três ideias. O editor está em Portland, o autor está na Austrália, e o feedback em dois fusos diferentes do meu demora ao menos um dia do trabalho. Fiquei colorindo páginas do Casanova enquanto esperava.  Recebido o feedback do editor, rascunhei um pouco mais, cheguei na ideia que eu queria. Todo mundo gostou. O desenho da capa, do lápis à arte-final e à cor, levou mais dois dias para ficar pronto.

Essa eu ainda não posso mostrar.

Uma máscara ao avesso, que se esconde enquanto mostro o que há por trás da sua criação.



Escrito por Fabio Moon às 19h35
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Que o novo ano seja criativo

Mais de uma vez essa semana, me peguei pensando que o ano começou, que já estamos no dia 12, e eu ainda não fiz nenhum desenho este ano. Olhei para o meu caderno de rascunhos, um caderno novo que comecei no mês de Dezembro, logo depois da CCXP, e fiquei observando os desenhos, os rascunhos, as brincadeiras visuais que eu fiz, a maioria sem propósito, sem motivo profissional – embora dois dos desenhos tenham sido feitos durante duas reuniões que fizemos em Dezembro sobre novos projetos –, e de fato o último dezenho foi feito no dia 31, na praia.

Na parte de cima da folha do caderno, pensando no ano que estava terminando, rabisquei uma ode às personagens femininas que desenhei em 2016. Embora eu tenha lido muita Mulher-Maravilha nos anos 80 e 90 (forte na lembrança, ficaram a fase do George Pérez e do John Byrne), nunca me imaginei desenhando uma história com ela. Mais ainda, nunca me imaginei escrevendo uma história dela. 2016 me trouxe essa surpresa, essa ideia que brotou na minha cabeça na semana em que recebi o convite para participar da antologia de aniversário da Mulher Maravilha. Já recebemos convites para desenhar super-heróis da Marvel e da DC antes, e normalmente acabamos agradecendo mas recusando o convite, mas essa ideia – que logo se transformou em vontade – acabou sendo mais forte.

Igualmente surreal foi a chance de adaptar uma história do Neil Gaiman para os Quadrinhos, e o resultado dessa oportunidade mágica, o livro "How to Talk to Girls at Parties", é o que minha Mulher Maravilha está folheando nas últimas horas do ano, descobrindo as "poetry girls" que passei tantos meses desenhando e pintando com aquarela. Recentemente, foi noticiada a editora que publicará esse novo livro por aqui, o que me lembra que ainda preciso fazer o título em português para a capa (os títulos na capa foram feitos à mão, e em Dezembro fiz as versões francesa e italiana).

Na parte de baixo da mesma folha, antes do ano acabar, resolvi fazer alguns desenhos que também carregam significados específicos à 2016, como o aniversário de dez anos do Casanova, nosso gibi de espionagem interdimencional criado e escrito pelo Matt Fraction. Pelas nossa contas, levando em consideração que fazemos o Casanova entre tantos outros projetos, calculamos que precisaremos de ao menos mais dez anos para chegar ao fim dessa saga. No começo, quando somente o Matt escrevia e somente o Bá desenhava, eu era o primeiro leitor, um privilegiado que podia ler o roteiro, ver o Bá desenhando e depois ainda ver o produto final. Eu era o maior fã do Casanova, e talvez eu ainda seja, o que me faz querer ler essa história até o final para descobrir como termina, e isso testa minha paciência já que eu sei que ainda precisaremos esperar anos até chegar à última página.

A última imagem do ano registrada no meu caderno foi esse coelho e esse fundo alaranjado cujo desenho geométrico repete o do chão de taco do apartamento onde vivi nos últimos três anos. A quatro pequenas quadras de distância do estúdio, o apartamento mudou minha rotina de vida, incluindo no meu dia-a-dia uma vida pedestre que há muito tempo eu não tinha em São Paulo. Enquanto eu observei a cidade pelas janelas amplas do meu oitavo andar, observei muito mais pelas ruas caminhando do que minha visão periférica permitiria se eu estivesse ao volante. Fui feliz no apartamento, e esse chão de estrelas me trouxe a tranquilidade que eu precisava nestes três anos para poder correr atrás dos desafios profissionais. Agora, meu tempo no apartamento terminou, e é hora de ir em busca de novas aventuras tendo outro endereço como pouso.

Também chegou ao fim em 2016 nossa tira Quase Nada, e o último desenho do ano traz meu último animal simbólico, desejando fertilidade para 2017. Que esse ano que está começando traga novas pessoas para nossas vidas, novos amigos, assim como novas oportunidades de reencontrar os amigos de longa data. Que traga novas ideias, novas histórias, e a força e determinação necessárias para que a criatividade e a arte perseverem diante de um mundo cheio de problemas (e cheio de gente que se consome ao enxergar somente esses problemas).

O ano começou, já estamos no dia 12, nada mais acrescentei ao caderno ainda, e a ilusão de que ainda não fiz nenhum desenho esse ano continua, mesmo sendo falsa. Já desenhei uma página de um novo projeto (o lápis foi digital, e essa falta do papel pode ter ajudado na minha confusão, mas ontem fiz a arte-final com nanquim no papel), e colori duas páginas do Casanova do número que  o Bá está desenhando. Meu caderno está aberto na prancheta, pois preciso rabiscar algumas ideias para uma capa. A primeira página do ano, em branco, me encara enquanto fico pensando na capa, no que fazer, no que desenhar, perdido naquele papel vazio tão cheio de possibilidades, pensando nesses primeiros trabalhos do ano.

"Começou", digo em silêncio, sorrindo.



Escrito por Fabio Moon às 21h02
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Olhos de ressaca



Escrito por Fabio Moon às 10h50
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Mais uma vez, CCXP.

Sim, foi épico. Cada ano que passa, mais épico.

Passados dois dias de ressaca, recuperados da exaustão física e mental, já é possível falar sobre a CCXP 2016, que aconteceu semana passada em São Paulo. Durante quatro dias, minha vida rodou em volta da CCXP. A verdade é que a CCXP vive no pensamento das pessoas durante o ano inteiro e uma semana antes do evento eu já parei de desenhar a HQ em que estou trabalhando, tomado pelos preparativos para o evento. Decidido a criar uma imagem nova pra promover o Dois Irmãos, fechando os pedidos de livros, escrevendo para os amigos que estariam no evento e programando nosso calendário e nossos compromissos, o evento invadiu minha rotina no fim de Novembro e ainda hoje ecoa nas pequenas pendências que precisam ser resolvidas. 

Na sua terceira edição, o evento está fincando definitivamente o pé no calendário cultural do país, tal qual a Feira do Livro, a Bienal de Arte de São Paulo, o Rock in Rio ou o LollaPalooza. Parte inegável dessa força vem do tamanho da CCXP, que já no próprio slogan diz a que veio: ÉPICO. O evento cresceu muito. O pavilhão do SP Expo, em reformas no ano passado, ficou muito maior, o que permitiu que o evento crescesse em todas as direções. Mais expositores, mais público, mais salas para os bate-papos, master classes e painéis. Enormes estandes de estúdios, filmes, bonecos, games e roupas se agigantavam por todos os lados, dando o caráter de parque de diversões do evento. Filas para o Harry Potter, filas pro Assassin's Creed, filas para todas as atrações. Atrações estas, diga-se de passagem, que eu nem sei exatamente o que eram, pois eu só passava à margem, nas viagens de chegada ou saída, indo para um painel ou ao banheiro. Mini Con? Espaço Mangá? Arena de Games? O evento cresceu tanto que posso dizer com segurança que não vi tudo que tinha nele. Não tive tempo de passear, de explorar, de descobrir.

Assim como outras Comic Cons ao redor do mundo, o Quadrinista que está ali expondo seu trabalho tem sua experiência limitada exclusivamente à sua mesa no Artist Alley, sua interação com o fã de Quadrinhos que o procura e espera na fila em busca de um autógrafo. E a procura é tanta que não é possível nem ver direito as outras mesas, os outros profissionais e seus livros. Com os mais de 400 livros que levamos, e uns 300 pôsteres, eu passei quatro dias em pé (sim, em pé. Qualquer dia explico porquê), assinando HQs praticamente ininterruptamente. Outros passaram o evento inteiro sentados, de cabeça abaixada, desenhando ou escrevendo dedicatórias. Não entenda isso como uma reclamação, somente uma constatação. Todos os artistas "presos" no Artist Alley estão transbordando de alegria, extasiados com a enorme quantidade de novos leitores, de fãs interessados no seu trabalho, de gente lhes dando atenção. O mercado nacional de Quadrinhos é pequeno e difícil, e uma experiência como essa é, sem dúvida, uma luz que vem do céu e aponta para um paraíso onde tudo funciona, uma grande bolha que dura quatro dias. Mas a CCXP continua exaustivamente longa, das 10h às 22h, exaurindo diariamente toda energia que ela mesma fornece aos autores durante o dia e limitando uma possível interação social pós-evento. Interação que é, na minha opinião, fundamental para a saúde dos autores e do mercado. 

 

ccxp-2016-epico

Este ano as salas e auditórios para os painéis mudaram para o mezanino, isoladas do pavilhão principal. Como a programação foi divulgada dois dias antes do evento começar, quem não saiu da sua mesa pode nem ter pisado no mezanino e nem ficado sabendo que ali aconteceram encontros e conversas. É o preço da expansão do evento, se espalhando, se separando, mudando um pouco a cada ano, ainda procurando um formato. Gostaria de ter visto a master class de narrativa do Eduardo Risso, ou a de roteiro do Brian Azzarello, mas eu estava na minha mesa, em pé, assinando livros. Espero que o público – e Quadrinistas mais iniciantes – tenha aproveitado bem as várias oportunidades que o evento proporciou.

Uma destas palestras ocorreu no auditório Ultra e foi o painel sobre o Dois Irmãos e suas adaptações, com a presença do próprio Milton, da Maria Camargo, roteirista da minissérie, e do Cauã Reymond, que interpretará os gêmeos na fase adulta. E foi incrível. É sempre bom ouvir o Milton falando sobre a história, aprender um pouco mais com ele. E poder compartilhar a paixão pela história com a Maria Camargo e a consciência de participar de um projeto especial com o Cauã. Foi um encontro de linguagens que eu e o Fábio estávamos planejando desde 2014, quando terminamos a HQ e já tínhamos conhecimento da série. Um encontro perfeito para a festa de cultura pop que é a Comic Con. E ainda fomos agraciados com um clipe exclusivo da série feito para o painel, montado com uma liguagem que apelasse ao público ali presente, com pinceladas gráficas retiradas da nossa HQ. Foi de arrepiar ver uma coisa tão simples como o logo da Globo em PB, partido ao meio, como a minha capa.

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O painel sobre o Dois Irmãos foi um dos nossos únicos compromissos fora da nossa mesa. Demos uma entrevista no estande da UOL na quinta-feira e fizemos duas demonstrações de desenho na WACOM, falando sobre nosso processo de trabalho e nossa adaptação à nova ferramenta. O resto do tempo, estávamos na mesa no Artist Alley, facilmente identificada por grandes painéis com imagens dos nossos livros e nossos nomes, presente da convenção para todos os convidados. Certamente ajudou a nos encontrar naquele mar de mesas e autores. Ficamos ali dando atenção ao público, enorme, que continua a nos supreender formando filas, trazendo suas HQs ou descobrindo nosso trabalho pela primeira vez. O público cheio de carinho, formava filas antes de chegarmos e esperava paciente, felizes quando sua vez chegava e com as dedicatórias e desenhos. Temos uma carreira de 20 anos, mas sempre nos alegra conhecer novos leitores, rever os antigos, ver nosso trabalho chegando em mais gente, tocando as pessoas, influenciando novos artistas. 

Fiquei em pé o tempo todo na minha mesa, sempre com um livro na mão, fazendo pequenos desenhos como sinal de agradecimento a todos que vieram nos prestigiar. Nesta posição, você facilmente olha as pessoas nos olhos, forjando assim uma cumplicidade, uma ligação com o leitor na sua frente. Da mesma maneira, posso enxergar facilmente o tamanho da fila e todos que estão nela, e vice-versa, assim como vejo e sou visto pelas pessoas que estão passando, trocando olhares, sorrisos, abrindo a guarda e convidando para uma aproximação, mostrando que não sou inacessível, nem somente um nome na capa de seus livros, mas uma pessoa real e que estou ali junto com eles, a algumas dedicatórias de distância. O respeito e carinho do público tem crescido todos os anos e isso nos motiva acontinuar produzindo e participar de eventos como esse, convencidos de que estamos no caminho certo.

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Mas nem tudo são flores na CCXP. A montagem do Artist Alley não pôde ser feita um dia antes da abertura, o que facilitaria muito a vida dos artistas, que são tão expositores como os grandes estúdios e lojas. O horário do evento continua sendo muito longo, vislumbrando receber o maior número de visitantes possível, mas criando uma jornada desumana para os artistas que estão ali o dia inteiro, desenhando, exaustos e famintos. Este ano vimos uma debandada geral do evento por parte das editoras de Quadrinhos – e livros. Havia um estande do grupo Record, um da Marsupial, um da Intrínseca todo decorado homenageando a obra – literária – do Neil Gaiman. A JBC tinha um estande grande, isolado estratégicamente num ponto do evento perto da Anime Experience. A Mythos tinha também um estande. Muito provavelmente devia ter outras editoras que eu nem vi. A Panini também continuou ali, grudada no Artist Alley, e achei que seu estande estava mais organizado que nos anos anteriores. Eles republicaram várias HQs dos convidados internacionais para aproveitar sua presença no evento, o que acho bem inteligente, além de firmarem mais parcerias com autores nacionais, como é o caso da Stout Club com o Xampu 2 e Segredo da Floresta. Infelizmente, a nova edição do Valente, do Vitor Cafaggi, que havia sido prometida, não foi publicada. Uma nova reimpressão do Daytripper também ficou de fora do seus planos. Havia alguns exemplares no seu estande, alguns na Comix e 100 na nossa mesa. Acabaram todos no início de sábado. 

O Quadrinho nacional é formado em grande parte pelos Quadrinistas independentes que encheram o Artist Alley, que aprenderam ao longos dos últimos anos que só depende deles, e o grosso da produção nacional estava bem representado ali, mas um evento deste tamanho não pode querer apresentar o mundo dos Quadrinhos ao público sem a presença das editoras. Elas não são ótimas, nem são a salvação da lavoura do Quadrinho nacional, mas nunca houve um momento tão bom no mercado nacional, com uma variedade tão grande de publicações, seja de clássicos ou de obras modernas. O público que foi ao evento descobriu centenas de autores novos e revistas que ele não encontraria em sua cidade, mas poderia ter descoberto a coleção Moebius publicada pela Nemo, ou o Tintim publicado pela Cia. das Letras. Nem cheguei a ver se tinha Asterix na Record. O heróico Jorge montou o imponente estande da Comix e lá colocou um pouco de tudo, uma amostra de cada editora, bem separado e organizado, mas nada que se compare a um estande próprio, ajudando também na identidade das editoras e sua linha editorial. Um evento deste tamanho não pode ter "um pouco" de editoras, precisa ter muito ou tudo.

Foi anunciado que a CCXP deste ano ficou maior que a SDCC, em San Diego, tanto em tamanho do pavilhão como em público. Uma das grandes diferenças de San Diego para as outras grandes Comic Cons nos Estados Unidos é que você encontra todas as editoras no evento. Grandes, pequenas, alternativas e mainstream, estão todas lá. Os estandes já têm seu espaço certo, seu "endereço" dentro da convenção, e o público sabe onde encontrá-las. Só a Marvel e DC não vendem suas HQs nos seus estandes, resumindo suas atividades a sessões de autógrafos e, cada vez mais, exposições de objetos oriundos dos filmes e séries de TV. Mas estas duas editoras, com os maiores estandes, pertencem a grandes estúdios de cinema, estão ali para enfeitar e perpetuar suas marcas no imaginário do público. Todas outras editoras trazem seus livros, suas publicações e valorizam seus autores. A CCXP não pode se contentar em seguir o formato somente da Marvel e da DC, dos grandes estúdios. 

 

A CCXP é um evento comercial e não há nada de errado com isso. O próprio Artist Alley representa um dos elementos mais comerciais da nossa indústria. Em todas convenções, e essa não é exceção, os artistas estão ali para ganhar dinheiro. Muito mais do que vender revistas, eles podem vender originais, fazer commissions, ganhar muito por um único desenho. Muitos artistas vêem nestes eventos somente isso, uma oportunidade de fazer um trocado – bem bom, por sinal – com alguns desenhos do Batman ou Wolverine. O problema é que isso passa, é descartável, não forma leitores. Não se pode deixar de lado as revistas independentes, as publicações, as histórias. A história é mais importante que o desenho, ela cria os mundos, os personagens que povoam a imaginação dos leitores e preenchem os pavilhões destes eventos. Tanto os artistas como os organizadores do evento não podem esquecer disso.

O sucesso da CCXP é incontestável, mas ela ainda está amadurecendo, evoluindo, procurando seu formato ideal, com erros e acertos. Todo mundo saiu feliz do pavilhão, artistas e público, mas não podemos nos iludir. O evento é uma bolha que não representa a realidade do Quadrinho nacional, mas aponta para o que ele poderia ser. Durante o ano, vamos presenciar o desaparecimento dos autores, os raríssimos lançamentos, todo mundo encasulado até o próximo grande evento. Ano que vem, no entanto, os organizadores vão levar a CCXP pra passear e fazer uma edição em Recife em Abril, para atingir outro público. Em Dezembro, a festa acontece de novo em São Paulo. Com duas edições de CCXP e um FIQ, 2017 promete ser um ano histórico para o Quadrinho nacional. 

Que 2017 seja, então, épico.



Escrito por Gabriel Bá às 13h57
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