Alguns colegas ilustradores acabaram de redigir e criar o Guia do Ilustrador. Não ensina nenhuma técnica, mas fala da profissão de ilustrador. Tem de tudo um pouco, de como lidar com o cliente, como organizar e apresentar o portifólio, até quanto cobrar e negociar o preço do seu trabalho. É um guia para o ILUSTRADOR, não sobre ilustração. Ainda não olhei com calma, mas definitivamente é algo indispensável para todos que querem ser ilustradores (e pra muitos que já o são e precisam de uns toques).
Isso me fez pensar num possível guia do Quadrinhista, dando dicas pros iniciantes, cuidados a tomar, postura profissional, preços. Também sem a intenção de ensinar técnicas, mas pra falar da profissão de Quadrinhista. Muita gente gosta de Quadrinhos, lê Quadrinhos, mas pouca gente sabe como é a profissão de Quadrinhista, muitos "quadrinhistas", inclusive. É parecida com a de ilustrador, mas tem suas peculiaridades
A maior diferença do ilustrador pro Quadrinhista é o mercado. Existe um enorme mercado de ilustração, do editorial ao publicitário, de marcas a infográficos, do infantil pro corporativo. Parte do que está escrito no Guia do Ilustrador diz da desinformação do cliente a respeito do seu trabalho, então muita gente vai procurar o Quadrinhista pra fazer um trabalho de ilustrador. Um Quadrinhista pode ser um ilustrador. Aliás, vai precisar trabalhar muito com ilustração no Brasil pra ganhar dinheiro e pagar as contas. Mas isso não é problema, como eu disse, pois o mercado tem trabalho para todos, é só saber vender o seu peixe.
O mercado de Quadrinhos é muito diferente. Não estou falando de números de vendas de revistas, bancas e livrarias. Estou falando de trabalho. Existe uma grande demanda de Quadrinhos institucionais, por exemplo, e muita gente fazendo isso. No entanto, como qualquer material didático, raramente esses trabalhos exploram ao máximo a linguagem, as possibilidades dos Quadrinhos. O cliente não sabe disso, mas o autor deve saber. Precisa saber que é possível fazer mais, fazer melhor. O autor tem que saber a diferença de HQ pra tira, saber quando usar um quadrinho longo e estreito, quando usar um close no personagem, quando colocar um quadrinho em silêncio pra enfatizar a emoção da cena. Pro cliente, basta colocar um quadro depois o outro, umas pessoas e uns balões com texto e pronto, é Quadrinhos.
Temos visto também um grande número de projetos de adaptações literárias em Quadrinhos, como foi o caso do nosso Alienista. Não é uma iniciativa dos autores, mas de editoras que viram uma possibilidade de apelo às escolas e outros órgãos públicos, além de também agradar ao público em geral que pode ter certo preconceito contra Quadrinhos. As editoras estão investindo nessa possibilidade, criando um segmento do mercado de Quadrinhos que pode ser amplamente desenvolvido. Sendo uma adaptação de uma obra clássica, deve ter algum valor. E sendo em Quadrinhos, deve ser mais fácil de ler. Nestas duas frases está o grande preconceito, mas vamos adiante. É inegável que vivemos numa sociedade com forte apelo visual e uma HQ traz este diferencial em relação à literatura. Mas pro público e pro cliente, como dito acima sobre os Quadrinhos institucionais, qualquer quadro do lado do outro com balão de fala é Quadrinhos, então cabe ao autor saber explorar a sua linguagem pra trazer o que ela tem de melhor à tona e ainda fazer bonito junto à obra adaptada. Cabe ao autor saber analisar o texto original e saber como adaptá-lo, onde cortar, o que manter e o que deve ser acrescentado, saber o que vai virar diálogo e o que se mantém em narração. Não podemos gastar essa boa oportunidade de dar mais visibilidade aos Quadrinhos com trabalhos fracos, adaptações baratas e recortadas. Se queremos que levem a sério os Quadrinhos, devemos levar a sério nossa profissão e fazer uma obra que se destaque, que tenha vida própria, sem ser a sombra da obra literária adaptada.
Ainda existe o mercado publicitário, onde você pode fazer algo que o público vê ou que não vê. O que ele não vê são os storyboards das propagandas. Um ilustrador também pode fazer isso, aliás é um trampo de ilustração, mas o pessoal da agência costuma achar que quem faz Quadrinhos manja disso, porque tem que contar uma historinha. No fundo, é verdade, a gente leva vantagem. Mas não pense que isso é um trampo de HQ e que vai fazer crescer o mercado. Só vai pagar suas contas... e pagar bem. Nos trabalhos que o público vai ver, tem a possibilidade de fazer algo em Quadrinhos ou – o mais comum – estilo Quadrinhos. Muitas vezes é uma ilustração. Algumas, pode ser uma tira. Em raras exceções, realmente te chamam pra fazer uma página de HQ, ou até uma historinha, um livretinho. Muitas vezes passa pelo campo do Quadrinho institucional, explicando algo sobre o produto. Outras, você precisa passar o conceito. Afinal, é publicidade e tem a função de vender alguma coisa. Algumas vezes pode te dar uma boa exposição pelo seu trabalho, outras as pessoas vão ver só o produto em questão. Mas isso acontece com muitas ilustrações também. Você tem que se acostumar com o fato de você, como autor, não importar muito – ou nada – no produto final. É triste, mas é uma realidade.
Como vocês podem ver, não falei dos Quadrinhistas que fazem Quadrinhos autorais. Todos os outros acima criam histórias, personagens, desenvolvem roteiros e desenham por horas a fio, mas os autores, como eu já coloquei aqui várias vezes, têm que trabalhar de graça durante meses pra depois se auto-publicar ou apresentar e publicar o seu projeto com uma editora e ganhar os "royalties" das vendas. Por estes mesmo motivos, eles deveriam dar o máximo em cada trabalho, mas não é o que vemos. Vemos muita gente perdendo o gás no meio das histórias, vemos trabalhos corridos, somente pra concretizar o sonho de ver o trabalho publicado. Isso não é profissionalismo. Enquanto tanta gente continuar a fazer o trabalho de qualquer jeito, a profissão de Quadrinhista não irá pra frente.
O público gosta de Quadrinhos, mas não conhece a profissão. Nem precisa. Eles só precisam ver o trabalho final e este deve ser o melhor trabalho que você pode fazer. As editoras podem entender de vendas, divulgação, distribuição e de mercado e publicar o seu livro, mas você é que tem que mostrar o potencial do seu trabalho, mostrar do que você é capaz. É preciso olhar pra o que existe na banca hoje, o que está nas estantes das livrarias e pensar: Eu consigo fazer diferente. Eu consigo fazer melhor.
Aqui estamos, todos os dias. Desenhando, frente a frente, produzindo histórias em Quadrinhos. Enquanto minha mesa acumula potes de nanquim, a do Bá acumula canetas e, se a produção continuar assim - e ela só tende a aumentar - ainda vamos acumular muito mais.
O telefone, que vem nos deixando em paz, fica longe, nos obrigando a levantar e ir buscá-lo, o que consiste nosso exercício diário. Ficar sentado todos os dias, o dia inteiro, não faz bem à saúde.
De volta ao trabalho, então, que as páginas começam em branco todos os dias, e precisam terminar o dia preenchidas.
Como noticiado no Blog dos Quadrinhos, o Art Spiegelman não vem mais para o FILP e, conseqüentemente, cancelaram a mesa sobre Quadrinhos no evento. O caso dele não poder vir, acontece. Calcarem a mesa exclusivamente na presença dele (ou outro nome de peso estrangeiro), acho que mais fere do que ajuda a visão que o público tem do Quadrinho nacional. Um decepção e uma oportunidade perdida.
Enquanto isso, continuamos a toda por aqui, com vários projetos ao mesmo tempo. Estamos preparando um gibi independente pra vender no Comicon de San Diego, juntamente com a Becky Cloonan, Vasilis Lolos e o Grampá, chamado 5. Aliás, venderemos a revista aqui também, durante a entrega do HQ MIX, dia 11 de Julho.
Já passei do meio do meu segundo número do Casanova e só agora sinto que estou entrando no ritmo. A cada dia, gosto mais das páginas, e isso é sempre bom quando você precisa de estímulo diariamente. Existe o estímulo externo, os amigos, as garotas (a garota), mas você precisa também estar contente com o que está produzindo, com o resultado, ou não existe vida social que compense a frustração de páginas ruins (e uso aqui "ruim" no sentido mais pessoal possível, pois principalmente o que eu acho ruim me desestimula, enquanto o ruim dos outros me informa sobre caminhos que estão funcionando ou não).
Os novos roteiros estão caminhando lentamente, mas de maneira positiva. Não sei se aprendemos mais sobre escrever roteiros lendo o roteiro dos outros, pois nossos roteiros são muito diferentes, não tem nenhuma explicação dos quadrinhos, restando quase que somente os diálogos, mas com certeza os roteiros de outros escritores nos fazem desenhar o que não desenhamos normalmente, o que não escrevemos normalmente, e isso vai aumentando nosso vocabulário visual. A cada roteiro novo que fazemos, percebemos que estamos absorvendo as imagens que já desenhamos e toda a pesquisa de cada história já desenhada.
Essa semana devia ter feito 5 páginas ou mais de Quadrinhos, mas acabei fazendo duas capas e um trampo de publicidade.
Por um lado, estou feliz com os resultados.
Passou ontem a matéria no Metrópolis, que eles gravaram no lançamento do nosso livro novo, O Alienista. Fala do lançamento, da adaptação, da indicação ao Eisner Award e dos projetos que estamos trabalhando agora e estão por vir. No site do Metrópolis, só quem é assinante UOL. Mas aqui, pra todos.
Procurando pela internet, já encontramos esses links para comprar O Alienista online: pela Fnac, pelo Submarino, pela Siciliano e pelas lojas Americanas. Mesmo que a sua livraria não tenha o livro, agora você pode encontrá-lo em todo o Brasil.
No final de semana aconteceu a Virada Cultural por aqui, mas nos EUA teve o Free Comic Book Day, dia que as editoras colocam edições especiais nas lojas de graça, pra incentivar a leitura, promover certo título. Foi isso que a Dark Horse fez com o Umbrella Academy, que teve uma edição especial de estréia lançada neste sábado.
Já recebi muitos emails perguntando como conseguir esta revista e, pra quem não mora nos EUA, Canadá, Reino Unido ou Austrália, acho que não rola mesmo. Infelizmente. Mas, como muitos sabem, a pirataria existe pra isso. Quem se esforçar um pouquinho, vai encontrar links da história inteira escaneada em muitos sites e fóruns dos fãs do My Chemical Romance. Eu mesmo já achei uns 3 (eu também não tenho a revista ainda).
Por aqui, o que eu posso fazer é mostrar 3 etapas da produção de uma página.
1 - Layout (rascunho)
Depois que eu recebo o roteiro, eu faço esse layout, um rascunho um pouco mais detalhado e maior que um thumbnail pra mostrar ao editor, Scott Allie, e ao escritor, Gerard Way. Dobro um A4 em 4 e faço um livretinho com a revista inteira, assim também sei qual página é ímpar e qual é par. Eles olham os layouts e comentam, pedem algumas mudanças aàs vezes e aprovam, daí eu posso fazer todo o resto e mandar a página pronta. O lado bom disso é que é muito mais rápido fazer os layouts de várias páginas do que se eu tivesse que mostrar as páginas a lápis. Eu consigo fazer no máximo 3 páginas a lápis por dia, enquanto dá pra fazer uma edição inteira de layouts.
Assim como num bom thumbnail, eu gosto muito quando eu resolvo bem o layout e, principalmente, quando o lápis fica tão expressivo e a composição tão harmoniosa quanto na versão pequena. Eu não sou de escanear e imprimir maior em azul o layout e desenhar em cima. Coloco o rascunho do lado e faço tudo de novo, então acertar proporções e equilibrar a página se torna uma tarefa mais difícil do que pode parecer, mas muito prazeirosa quando chego ao final da página com sucesso. Não existe fracasso, essa história de "não ficou tão bom quanto eu queria", pois vou apagar e refazer as cenas até ficar tão bom ou melhor que o rascunho inicial.
2 - Arte-Final
No caso desta página, não escaneei o lápis. Dependendo da complexidade dos planos e luz e sombra, eu coloco mais ou menos detalhes já no lápis, mas a maior definição do desenho, a verdadeira cara da página, meu estilo em si está na arte-final.
Eu adoro desenhos em PB e sempre farei o máximo para que as páginas fiquem boas o suficiente sem precisar de cor. Acho que um bom desenho não pode depender nem do texto nem da cor pra contar a história, pra guiar o olhar do leitor. Tanto as palavras como as cores vão acrescentar coisas, não salvar a arte.
3 - Cor
Quem me conhece sabe que não sou o maior fã de histórias coloridas, pois sou muito exigente e acho que a cor, muitas vezs, atrapalha mais do que ajuda. Além disso, nunca fiquei realmente satisfeito com as cores que fizeram em cima dos meus desenhos, nas raras vezes que isso aconteceu. No entanto, estou muito feliz com as cores que o Dave Stewart está fazendo.
Pude conversar bastante com ele sobre o tipo de tratamento que eu achava que combinava com meu desenho e com o clima da história, perguntei as opiniões dele, vimos os prós e contras de algumas opções diferentes e então ele apresentou as páginas. Muita gente poderia achar que seria fácil colorir minhas páginas, uma vez que eu tenho uma forte influência do Mignola e o Dave Stewart é o colorista do Hellboy, mas não é a mesma coisa e ele sacou isso na hora. Eu estou muito feliz com os resultados.
4 - Letras
Depois disso (essa parte eu nem vejo mais nada), as páginas vão para o letrista, que neste caso é o Nate Piekos. Também posso dizer que gostei desses balões mais aquadradados. E as onomatopéias estão bacanas.
Prá mim, é difícil deixar outras pessoas trabalharem em cima das minhas páginas, porque estou acostumado a fazer tudo, a controlar tudo, mas é bom poder sentir que eu posso confiar no trabalho dos outros e que a revista vai ficar boa por causa disso. Bom, enquanto isso, continuo aqui desenhando mais páginas da série que só estréia em Setembro, mas foi bom matar a curiosidade um pouco. Depois que a revista for pras lojas, eu poderei mostrar mais imagens e páginas.
No mais, demos um entrevista para o jornal Comunicação Oline, feito por alunos do curso de Jornalismo da UFPR. Início de carreira, mercado nacional, Alienista, Eisner Awards, aquela coisa toda.
O ápice do processo todo dos Quadrinhos é quando a revista está na mão do leitor, sendo lida, mas até chegar neste estágio demora muito tempo e o público não faz idéia de tudo que foi feito até ali. Você lê em 30 minutos algo que demorou meses pra ficar pronto e, quando termina, não consegue esperar pra ver a próxima revista, o próximo livro. Bom, algumas vezes, você tem que esperar. Acredite, se pro público é difícil esperar, para o autor é um suplício.
O Fábio e eu estamos trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo. Nunca fizemos uma coisa só por vez, é bem verdade, mas houve uma época que nós fazíamos várias coisas diferentes juntas. Algumas ilustrações pra Recreio, uns storyboards de absorvente e as nossas histórias. Hoje estamos envolvidos em vários projetos de Quadrinhos e, se fazer uma HQ já dá um trabalhão, fazer mais de uma ao mesmo tempo acaba com a nossa vida social.
Enquanto estamos desenhando histórias escritas por outras pessoas – o Fábio está desenhando o CASANOVA, escrito pelo Matt Fraction, e eu faço o Umbrella Academy, escrito pelo Gerard Way – estamos preparando uma revista independente para vender na Comicon de San Diego, juntamente com o Grampá, a Becky Cloonan e o Vasilis Lolos. Venderemos esta revista aqui no Brasil também (aliás, será impressa aqui, pra economizar), com lançamento durante a entrega do HQ Mix, no dia 11 de Julho. Vejam só como esta revista com 5 autores nos toma tanto tempo com mais de 2 meses de antecedência do seu lançamento, sendo que já passou a fase de discutir idéias e decidir como seriam as histórias. Ninguém vê essa parte e acha que os Quadrinhos já nascem prontos, num piscar de olhos.
Ainda estamos reunindo e editando o livro de comemoração dos 10 anos dos 10 Pãezinhos, com material do fanzine que quase ninguém viu. Algumas pessoas reclamam que é só uma compilação, não é nada novo, mas achamos que é importante mostrar de onde as coisas vêem e que, assim como tudo na vida, o nosso fanzine começou simples e tosco, mas foi melhorando com o tempo e foi indispensável para a evolução do nosso trabalho. Se a gente faz o que faz hoje, é porque fizemos várias historinhas bestas e ruinzinhas no fanzine. É isso que queremos mostrar para o público e, principalmente, para quem quer fazer quadrinhos e pensa que já nasceu pronto ou que acha que é ruim demais e que nunca vai melhorar.
Além dessas coisas todas, o Fábio e eu estamos pensando em novas histórias. Aqui ainda estamos na etapa de organizar as idéias, elaborar os roteiros e conversar com as editoras. Quando você produz qualquer coisa, no momento que você acaba e mostra pra alguém, você vai ouvir a pergunta: "E o que vocês vão fazer agora?" ou "Quando sai o próximo livro?" É isso que queremos fazer da nossa vida e não existe descanso pro autor. Não podemos parar senão o motor morre. Pro público, pode parecer que não estamos fazendo nada, mas nós sabemos o quanto demora produzir novas histórias e se bobearmos, demora mais ainda. Se o público e as editoras nos cobram novos projetos, nós nos cobramos ainda mais.
O mais estranho disso tudo é que eu e o Fábio temos certeza de uma coisa: podemos fazer mais. É por isso que continuamos abraçando o mundo. Não estamos aqui pra aproveitar e descansar. Queremos fazer valer o nosso tempo e contar nossas histórias, porque ninguém vai contá-las por nós.
Demos uma entrevista para o programa Em Cena, do Canal São Paulo, falando do nosso trabalho, de Quadrinhos e do Alienista. Ela vai ao ar amanhã, dia 4 de Maio, as 21:30h.
Em Cena, exibido pelo Canal de São Paulo, canal 18 da TVA. Inédito amanhã dia 04/05 - 21h30 com reprise aos domingos 14h00 terça - 12h30 e 19h30 e quinta - 09h30