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O deserto, a praia e a cidade.
Faz sol em São Paulo. Há uma semana atrás, estávamos na praia e lá também fazia sol. Uma semana antes disso, andávamos pelo deserto ensolarado. O único barulho do deserto era o do vento que não dormia nunca. Durante uma semana fomos só nós, jegues e porcos. E o vento. A chegada de duas mulheres foi o suficiente pra quebrar o silêncio das leituras e calar o sussurar dos ventos. Sabíamos, então, que era hora de partir. Aos poucos, voltamos. Saímos de uma vila de 250 habitantes e chegamos em outra com 250 pousadas. Se na primeira não se falava, nesta quase não se falava a nossa língua. Lá, os estrangeiros éramos nós. Quebrando barreiras lingüísticas, contatos foram feitos e descobrimos novas pessoas naquele mar salgado e, feito isso, a cada nova pessoa que conhecíamos, lembrávamos que existiam outras pessoas nos esperando em casa. 20 milhões de pessoas. Nas ruas, como no deserto, as pessoas também não conversam, apressadas e ocupadas, mas não se escuta o barulho do vento. Ele também tem pressa e já foi. Assim como na praia, aqui há muitos estrangeiros, mas estão espalhados tão longes uns dos outros que não se escuta suas línguas no meio de tantos telefones, motores e buzinas. Aqui o sol nasce e se põe, mas ninguém sobe na duna pra assistir o espetáculo. São Paulo é uma cidade diferente de todas que eu já estive. Diferente até dela mesma. Nenhuma casa é igual à do lado. A cada 5 casas que morrem, nasce um prédio. O seu vizinho não está nem aí pra você, pra ele você não existe, mas todos olham por trás do ombro desconfiados, estamos todos sendo seguidos o tempo todo. Um vagão do metrô atrás do outro, indo na mesma direção para destinos completamente diferentes. Não há ordem, só caos. E linhas. Muitas linhas.  Chove em São Paulo. Antes, choveu na praia, todos se escondendo, quem estava molhado no mar saiu pra não levar um raio na cabeça. Até no deserto choveu, porque era inverno. Estou sem internet no estúdio, agoniado, ilhado. Na praia tinha internet, mas eu não queria saber do resto do mundo. No deserto, não ter internet era uma benção. Nem celular pegava (nem levei celular). Lá, só havia o vento. Depois de ir ao deserto, o deserto passará a habitar nossas histórias. A praia já esteve aqui e acolá, está sempre esperando outra oportunidade de aparecer nas nossas páginas. São Paulo já vive em nossas histórias há muito tempo e sempre estará nas futuras narrativas que preparamos. Não importa aonde eu vá, São Paulo sempre irá comigo. 
Escrito por Gabriel Bá às 17h15 [ ]
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Lápis solto.

Quando meu desenho ainda está no lápis, é muito solto e pouco definido. Alguns detalhes precisam estar lá no lápis, mas a maioria eu deixo para a arte-final, para o pincel, pois o lápis e o pincel são instrumentos muito diferentes e muito do que eu quero desenhar, quero que fique com cara de pincel, e não com cara de lápis, então não adianta ficar muito tempo no lápis pois ele nunca vai chegar até onde eu quero.
Escrito por Fabio Moon às 17h27 [ ]
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Um momento.

Sabe aquele copinho de água com gás que alguns restaurantes servem antes do café?Aquele, que eu achava que era para limpar as mãos ("Mas meus dedos não cabem no copinho", eu pensava), mas que serve para tirar o sabor do que quer que você estivesse comendo ou bebendo para que você saboreie melhor o café? Às vezes, algum desenho serve para a mesma coisa.
Quando você passa muito tempo desenhando o mesmo projeto, fica difícil mudar para outro. Você já tem um ritmo, já tem vícios e costumes com relação ao processo de trabalho, e você não está preparado para o fim de um trabalho, e muito menos para o começo de outro.
Você precisa de um desenho para limpar a cabeça, a mão, para experimentar sem expectativas e sem pressa. Você desenha apenas pelo prazer, pela curiosidade e pelo momento. Você precisa de um momento para se recuperar da última jornada.
Quando você é novamente pleno, e novamente seu, mergulhe novamente, pois uma nova aventura te espera.
Escrito por Fabio Moon às 19h56 [ ]
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À sombra de duas mangueiras.

As copas de duas mangueiras se encontravam no topo, projetando a sombra em que eu me encontrava. Elas não eram muito altas, e constantemente eu batia a cabeça em um dos galhos em direção ao portão da casa. Sempre o mesmo galho, ao menos quatro vezes em um mesmo dia. Eu sei que você está aí, eu pensava para o galho. Acho que a árvore queria se divertir às minhas custas mesmo assim.
Desenhar ao ar livre, em um dia bonito de sol, sentado à sombra de uma árvore, é muito bom para lembrar que, muito mais do que um trabalho, desenhar é um prazer, um prazer pessoal, íntimo, dividido apenas com o papel, com o pincel, um movimento que te leva para qualquer lugar sem que você precise sair do lugar.
Eu passei quatro dias descansando, desenhando de longe e imaginando histórias que ainda não contei. Mergulhei no mar gelado e fui sacudido por ondas que acordavam meu corpo e me lembravam que o mar está sempre lá para nos abraçar quando precisamos dele. Pensei nos Quadrinhos desse novo ano, e pensei nesse mês de Janeiro que já começa cheio de trabalho, de páginas e de histórias. Janeiro começa com as férias do Bá e a minha volta ao trabalho. Ainda faltam várias páginas para que a história atual termine e, sendo assim, para que a nova comece. Janeiro promete ser um mês de bastante trabalho, mas depois de sentar à sombra da mangueira, depois de pular as sete ondas do ano novo e jogar flores, depois de comer romã e trocar folhar de louro, eu volto pronto para o trabalho que me espera, pronto para o ano que me espera, e certo de que, se 2007 foi um ótimo ano, só depende de mim (de nós) para que 2008 seja ainda melhor.
Escrito por Fabio Moon às 11h48 [ ]
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