Pode parecer exagero e o livro não vai revolucionar os Quadrinhos nacionais, mas não há dúvidas que
Mesmo Delivery, a graphic novel
de estréia do
Grampá, é incrivelmente aguardada por muitos há muito tempo, sem ninguém conhecer quase nada sobre o autor ou a obra.
Qual o segredo? Qual a mágica? Ou simplesmente "
por quê"?
Aconteceu comigo e ainda acontece com todo mundo. O desenho do Grampá
é FODA e, querendo ou não, o meio dos Quadrinhos é muito influenciado pelo lado visual da coisa (e muitos artistas deviam dar mais atenção aos seus desenhos). Bom estilo, cheio de detalhes, o tipo de coisa que prende o olho e impressiona, assim como aconteceu com o Todd McFarlane e o Jim Lee nos anos 80. Comparado com o que existe à sua volta, o Grampá se destaca e muito.
Mas é só isso? Não.

Quando conheci o Grampá em 2004, num trampo que ele me chamou pra fazer na
Lobo, simpatizamos na hora um com o outro. Aquele "guri" adorava Quadrinhos e desenhava de tudo, além de ter algumas das idéias mais criativas que eu já ouvi. Ele é muito cativante e seu trabalho também é assim. O Grampá é uma esponja, se adapta fácil em qualquer trampo, em qualquer ambiente e absorve o que há de melhor em qualquer tipo de trabalho que ele possa vir a fazer. Uma das maiores qualidades do seu trabalho é saber misturar todas as influências que ele tem, não importa de que mídia, e criar algo original e que, pegando um pouco de tudo, não se parece com nada que se viu antes. Esse é outro exemplo que deveria ser seguido por mais Quadrinhistas que às vezes se isolam no micro universo dos Quadrinhos pra pautar seu trabalho e disto nunca vão crescer.

O mais engraçado disto tudo é que o Grampá NUNCA HAVIA FEITO QUADRINHOS NA VIDA!!! Idéias ótimas, desenho foda e nunca fez HQ?? Na verdade, é algo extremamente comum no Brasil, onde poucos vão atrás do difícil sonho dos Quadrinhos quando coisas mais fáceis batem à porta e quando contas acumulam em cima da escrivaninha. O Grampá trampava com publicidade, ganhava bem, mandava dinheiro pra mãe e era isso mesmo. Era, até a gente (o Fábio e eu) enchermos o saco dele pra que ele fizesse Quadrinhos. Era um desperdício humano alguém como ele viver escondido, o mercado precisava do Grampá.

Em 2005, convencemos o Grampá a fazer uma HQ pro álbum de faroeste
BANG BANG, lançado nos EUA pela
Terra Major (do Shane, mesmo autor do Rolando, ainda tentando fazer vingar sua editora) e aqui no Brasil pela
Devir. De cara, o Grampá foi publicado lá e aqui, com uma super história de... 4 páginas, quase sem falas. Na hora do vamos ver é que se descobre a distância que separa um desenhista com idéias do Quadrinhista. O Grampá não é de fazer mal feito e o que ele conseguiu fazer foram 4 páginas. Páginas estas que chamaram a atenção de qualquer um que pegasse o livro na mão. As pessoas queriam saber
"onde podiam encontrar mais trabalhos do Grampá", mas não havia mais nada, só as idéias na cabeça doentia dele. E assim ficou, incógnito, até fevereiro de 2007, quando ele criou seu
blog.
E por que ele criou um blog? Porque, depois de anos de pentelhação, ele finalmente havia decidido fazer uma HQ mais longa e nós havíamos convencido ele a ir pra
Comic Con de San Diego pra levar seu trabalho e o convidamos pra participar do
5 conosco. Pra ajudar na divulgação do trabalho e manter acesa a curiosidade do público, ele criou o blog e começou anunciando tudo isso que eu escrevi neste parágrafo, e colocou esta imagem:

Quase nenhum Quadrinhista brasileiro (ou gringo) tem noção de composição e design e, com certeza, nenhum manda tão bem quanto o Grampá. E desta habilidade sem igual ele conseguiu, com um único desenho, fazer com que todos quisessem saber mais dele e, acima de tudo, comprar seu gibi.
Mas não existia gibi.
Isso foi em fevereiro de 2007 e até julho de 2008 ele foi capaz de segurar a atenção, curiosidade e fome do espectador com raros textos sobre sua produção, suas idéias e devaneios, sempre acompanhados de rascunhos, páginas e outras imagens de encher o olho.
Como nós levamos muito a sério o que fazemos, vimos que ele não conseguiria fazer uma HQ para o
5 (idéia inicial de 5 HQs), então mudamos o plano pra capa e divisões de capítulo. Muita correria e o trabalho ficou pronto, do jeito que o Eisner Award conhece. Com o Grampá não existe outra forma de trabalhar, é o caos e as madrugadas que mandam no seu relógio e não há como mudar isso (talvez o tempo).


Ele não terminou sua HQ a tempo da Comic Con de 2007 e não foi conosco, como ele vinha anunciando por 6 meses. Mesmo no ritmo dele, o Grampá havia pedido demissão da Lobo e estava totalmente dedicado à sua HQ, mas como bom
multi-homem multi-talentoso mono-tarefa que ele é, ele acabou se envolvendo em outros trampos como o
Resfest e a adaptação do
Dobro de Cinco para o cinema. Não importa o meio, sempre projetos de muita exposição. Não é da noite para o dia que se torna Quadrinhista, que se larga tudo e vive de Quadrinhos e toda esta atenção só fazia crescer o mistério sobre este artista e seu trabalho, já passado um ano de produção.

Em novembro de 2007, depois de conversar com a Conrad, Grampá fechou contrato com a
Desiderata pra publicar sua HQ no Brasil, sem não ter nem 1/4 do livro pronto. Seu projeto independente ia se tornando maior e a pressão também crescia, com prazos, anúncios e datas de lançamento.

Sem história, com muita lábia no blog e com desenhos incríveis, o Grampá ia cativando e enfeitiçando a todos, inclusive a mídia – nacional e internacional – que sempre exagera na mão e faz o público acreditar em qualquer coisa. É o
HYPE e o Grampá é o rei do
"raipe", pois pouca gente sabe vender seu peixe como ele (tá aí mais uma coisa que os Quadrinhistas deviam aprender. Tá anotando?). Vende tão bem seu peixe que vendeu os direitos de sua HQ (incompleta) para o produtor Rodrigo Teixeira pra transpor para o cinema, o que já bancou a impressão em 4 cores da edição gringa. Mesmo independente, impresso no Brasil com a supervisão e edição do Lobo (ex-editor da Desiderata), ainda conseguiu fechar a distribuição da revista pela
AdHouse.



Muita imprensa, indicação ao Eisner Award (além de tudo, o cara é rabudo pra caralho, pois foi indicado ao Eisner num de seus primeiros trampos. Sem dizer que... ganhamos, né?), editora nacional e gringa engatilhadas e Comic Con se aproximando (AH, passaporte e visto na mão), acabou a brincadeira e ele teve que se puxar pra terminar tudo. Bem do jeito que ele gosta, varando noites, tomando energético e colocando a namorada e os amigos pra ajudar, ele finalmente conseguiu terminar sua primeira HQ.
Não importa se ele demorou 2 anos (demoramos 3 pra fazer o Rolando), se ele falou mais que a boca e estourou todos os prazos que ele tinha. Ele foi até o fim e fez sua primeira Graphic Novel, coisa que muitos não chegam a fazer. Além do desenho sem igual (que muitos comparam com Geoff Darrow e Paul Pope), agora chegou a hora de
ler a história, ver qual o conteúdo por trás desta embalagem tão bem feita. Assim como ele faz com os desenhos, ele mistura todas suas influências mais diversas e cria uma história divertida e energética que carrega o leitor por todas as páginas do livro, deixando todo mundo com um sorriso no rosto e querendo ver mais.
Até no lançamento ele se difere dos outros Quadrinhistas. Agendou o lançamento da
Mesmo Delivery na
Livraria POP, uma micro livraria/galeria super
cool e descolada, com patrocínio da Heineken e, depois que a livraria fecha, mudam todos para o segundo tempo na
Mercearia São Pedro, reduto boêmio de grande badalação que sempre apoiou o Quadrinho nacional. Ou seja, FESTA, FESTA, FESTA.

O filho nasceu e todos querem ir pra cama com o Grampá e ter o próximo rebento deste guri. As propostas já estão vindo, ele já está desenhando um roteiro do
Azzarello pro Hellblazer e escrevendo sua próxima saga junto com
Daniel Pellizzari. Seu trabalho vai influenciar muita gente, de uma forma ou de outra, mas as reais perguntas são:
o que o próprio Grampá aprendeu nestes dois anos?
O que ele vai fazer a partir de agora?
Qual o impacto que esta HQ terá no resto da sua carreira?O mundo dos Quadrinhos é grande demais pro Grampá? Chato demais? Limitado demais?
Como tudo nos Quadrinhos, isto também vai demorar pra ser respondido. Eu estarei lá quando a resposta vier e espero que o Grampá esteja do meu lado.