O que tornou 2008 tão diferente dos outros anos?

Fazemos quase a mesma coisa há 12 anos. Este é o tempo que a Comic Con Intenational de San Diego divide nosso ano em "antes e depois" da Convenção, pauta nossas "férias" (viagens anuais de uma semana pra Califórnia) e nosso trabalho (o que vamos fazer este ano pra levar e mostrar). Esse é o tempo que demorou entre a gente ver o que era possível fazer com Quadrinhos e fazer.
Mas o que a gente fez de tão especial em 2008? O que diferencia do que a gente vinha fazendo nos anos anteriores?
Em 1997, nosso fanzine era apenas mais um entre tantos outros que lutavam pra sobreviver à década de 90. O que nos diferenciou lá, realmente, foi "O Girassol e a Lua", nossa primeira história longa, nosso primeiro álbum (lançado em 2000 pela Via Lettera) e considerada por alguns nossa melhor história. História que também nos rendeu nossos primeiros troféus HQ Mix.
Aliás, desde 2000, laçamos 5 livros dos "10 Pãezinhos", quatro revistas independentes, ganhamos 11 HQ Mix e 3 troféus Angelo Agostini. Todos nossos lançamentos tiveram cobertura da mídia e sempre ganhamos o foco da mídia especializada quando recebíamos um novo prêmio. Em 2008, porém, não ganhamos nenhum Angelo Agostini, nenhum HQ Mix. Então, o que mudou?
Nós ganhamos o Eisner Award.
Como isso aconteceu? Em 2003 publicamos uma HQ de 8 páginas na antologia Autobiographix, que foi indicada ao Eisner. Em 2004, lançamos URSULA pela AiT'Planet Lar e ROCK'N'ROLL independente. Em 2005 lançamos o ROCK'N'ROLL pela Image e o Smoke and Guns pela AiT. Em 2006, lançamos o De:TALES pela Dark Horse, indicado ao Eisner Award, fizemos o Casanova e participamos do 24seven. Em 2007, participamos do segundo volume do 24seven, do Flight, mais Casanova e fizemos o Umbrella Academy, o Sugar Shock, ambos pela Dark Horse e o 5 independente. Em 2008, ganhamos 3 Eisner Awards.
Por que tanto entusiasmo? Porque nossa revista independente venceu na categoria "Antologia" de livros parrudos e cheios de nomes importantes? Porque o Brasil fez bonito na gringolândia? Porque fomos os primeiros? Provavelmente.
Folha de São Paulo, Estadão, Jornal da Tarde, Carta Capital, Época, guia da Vila Madalena, Revista do Bairro, Época, Vogue Homem, Revista da GOL, CBN. Programa Almanaque na Globonews, Urbano no Multishow, algo na MTV e no SBT. A sempre fiel TV Cultura. Jornais na Paraíba, Pernambuco, Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba, Jundiaí, Alto Tietê. Jornais Universitários além de trabalhos de graduação. Ah, e a internet. Viva a internet, não é mesmo?
Então, obviamente, devido ao prêmio, ganhamos uma exposição inédita e de uma proporção descomunal. o que é inegavelmente bom para nossa imagem. Agora sempre aparecemos acompanhados do rótulo "Eisner". É uma daquelas coisas na vida que não têm volta. Gente que nunca se pronunciou na internet nos escreveu para nos parabenizar. Pessoas que não lêem Quadrinhos nos congratulam. Recebo mensagens de SMS no celular dos amigos sempre que aparece alguma coisa nova (ou a mesma coisa em algum lugar novo). O que as pessoas vêem é a exposição. O que a mídia vê são os prêmios. O que eu vejo é o trabalho. E o trabalho? Isso tudo é bom para o trabalho?
O ano passado lançamos a 2ª edição do "Girassol e a Lua" e "Meu Coração, Não Sei Por Quê.", este ano lançaremos (iminente) a 2ª edição do "CRÍTICA!". O "Mesa Para Dois" foi lançado em 2006 e lançamos o "FANZINE" e a adaptação de "O Alienista" em 2007. Pra nossa sorte, então, se toda essa exposição mover o público a procurar nosso trabalho, existe uma grande chance dele ser encontrado. Aonde? Nas livrarias, algumas, em estantes escondidas e mal organizadas, sem nenhum destaque que condiga com tamanha exposição que a mídia deu.
Ah, 2008 também foi importante pra Machado de Assis, com o centenário de sua morte. Dentre as muitas adaptações literárias que pipocam no Quadrinhos, só do "Alienista" foram quatro. Se antes a nossa versão se diferenciava apenas por ser nossa, agora ela tem um Jabuti de distância das outras.
Com a compra de livros pelo Governo para o PNBE e a inclusão do Alienista e do Meu Coração, Não Sei Por Quê. na lista no ano que vem, esperamos alcançar muitos novos leitores.

Puxa, é muita coisa mesmo. Mas tem mais? Sim. A lado bom dessa exposição exacerbada é que, além dos livros nas livrarias – escondidos nas prateleiras, limitados a poucas unidades e poucos estabelecimentos – as pessoas também podem ver nosso trabalho com freqüência de duas formas diferentes, em dois lugares diferentes. Nossa página de Quadrinhos mensal na revista Época São Paulo, onde falamos da cidade, seus habitantes e suas peculiaridades, numa São Paulo onde os carros sumiram e não pára mais de chover, regados com o lirismo da aquarela; e na Folha de São Paulo, a nossa tira dominical Quase Nada na Ilustrada, local que vem gravando o trabalho da nata do nosso Quadrinho na alma dos Brasileiros por anos. Nós, que não fazemos Humor e não fazíamos tira, agora temos uma tira na Folha e estamos adorando as infinitas possibilidades que ela nos oferece. Com estes dois trabalhos e sua periodicidade constante, nunca estivemos tão acessíveis ao público.
Participamos de uma mesa redonda semana passada com Angeli, Laerte, Rafa Coutinho e Grampá, mediada pelo Paulo Ramos. Foi emocionante estar na mesma mesa que os mestres Laerte e o Angeli, além do nosso lado do boteco com os amigos Rafa e o Grampá. O tom da palestra e das perguntas mediadas foi muito voltado ao mercado e seus problemas, algo que brecou um pouco a fluidez das respostas, mas o Angeli falou o essencial ao notar que "o importante é ter o que dizer, é ter opinião, é ter um discurso no seu trabalho". Ali, inegavelmente, só tinha autores que têm o que dizer, não importa a quanto tempo trabalham, quantos prêmios ganharam ou quantos álbuns publicaram.
Está nas bancas uma edição especial da revista Época com as 100 pessoas mais influentes do Brasil em 2008 . Entre banqueiros e empresários, o presidente Lula, João Gilberto, o cineasta Fernando Meirelles, a top modelRaquel Zimmerman e o nadador Cesar Cielo, estamos nós, os gêmeos (não os do grafite) que ganharam o Oscar dos Quadrinhos, com um lindo texto do Laerte (obrigado, mestre).

Com toda essa exposição, fica no ar a pergunta se está mudando a opinião geral sobre os Quadrinhos no Brasil. Talvez, mas não é a mídia que vai nos provar isso. O mercado de Quadrinhos Nacional está mudando, realmente, e isso deve ser comemorado por todos. Mas nunca deve se tornar o foco da discussão. Só o trabalho importa, só ele pode mudar isso. Não vai adiantar nada as pessoas se organizarem pra distribuir melhor as revistas pelo Brasil inteiro se ninguém produzir mais revistas.
Os Quadrinhistas são vistos como desenhistas, mas o importante é a história. Não sei se somos tão influentes assim, mas não é nas entrevistas ou no blog – ou com prêmios – que vamos dar nossa opinião e mudar o mundo. É com o nosso trabalho. Sempre foi assim e continuará sendo.