Neste final de semana, me senti o verdadeiro roteirista. Não que eu não o seja, mas logo vai ficar claro o que eu quero dizer.
Hoje, segunda feira, eu tinha que entregar nossa história mensal da
Época São Paulo. Normalmente, levamos 3 dias pra pensar na idéia, desenhar, colorir e letreirar tudo. Com nosso volume de trabalho, acabei tendo somente um dia e meio pra fazer a HQ.
Eu tinha uma idéia há algum tempo sobre a história que eu queria contar, mas precisava afinar os detalhes. Como de costume, peguei o caderno e tracei a página pra fazer um rascunho da página (um
thumbnail).
Geralmente eu vou pensando na HQ na minha cabeça e montando a página no rascunho, colocando ao lado somente as frases cruciais e alguns diálogos. Somente quando desenhei tudo e escaneei é que eu penso em todos os textos realmente. Essas histórias da Época SP a gente conta com muitas recordatórias, muita narrativa, então eu acabo escrevendo mais do que eu costumo em outras HQs, pois é o texto que vai dar o ritmo da leitura.
A medida que eu comecei a colocar as frases no caderno, percebi que essa história teria muito texto, então larguei o caderno e fui pro computador pra pensar em todo o texto pra ver qual espaço ele iria ocupar e, conseqüentemente (a trema morreu?), qual espaço sobraria pra arte. Disso surgiu a imagem abaixo.
Primeiro escrevi todo o texto. Coloquei todas as idéias "no papel" pra depois ir refinando e melhorando a leitura até chegar em tudo que iria realmente entrar na história. Depois, separei em blocos que viriam a ser os balões (a coluna de texto da esquerda).
Aí comecei a distribuir os balões na página. Eu tinha imagens na minha cabeça, mesmo quando ia escrevendo o texto, algumas imagens que eu queria que fossem com aquela frase específica. Com isso em mente, fui criando uma história invisível com aqueles textos e a minha imaginação.
Minha idéia inicial era ter uns quadrinhos grandes, alguns quadrinhos somente com texto, mas percebi que o melhor jeito de contar esta história seria usar vários quadros pequenos dando o ritmo da leitura, mesmo que com um mínimo de arte, somente pra criar a real experiência de História em Quadrinhos. Algo como as tiras dominicais dos jornais antigos ou como uma página do Chris Ware.
Nada disso serviria pra nada se eu tivesse que desenhar a página calculando no
"olhômetro" o espaço de cada texto. Foi então que eu decidi colocar umas guias de onde seriam os quadros e imprimir este "guia" pra desenhar minha página. Passei tudo na mesa de luz e desenhei a história no espaço dos quadrinhos que sobrava. É um ótimo jeito de não desperdiçar tempo com desenhos que vão ficar atrás do texto e de saber aproveitar o melhor do seu desenho no espaço que você tem.
É uma experiência parecida com fazer os balões à mão, direto na página, e desenhar no espaço que sobra.
Olhando pra imagem da "
página sem imagens", fico pensando que este é o trabalho do roteirista. Ele precisa ser capaz de pensar na sua história e imaginar como distribuir esta história na página. Ele não precisa saber desenhar, mas precisa conseguir criar a leitura da página na divisão de quadros e balões, assim como eu fiz na página acima.
Ser um roteirista de Quadrinhos é muito mais do que ser somente um escritor. É preciso saber que sua história será contada num espaço gráfico de uma página (ou mais ), separada não em parágrafos, mas em recordatórias e balões. dentro de vários quadros de diferentes tamanhos, acompanhados de desenhos que podem – e vão – dizer coisas que o texto não precisa, talvez nem consiga.
O roteirista não precisa entregar este planejamento pro desenhista, afinal é o trabalho deste último saber fazer isso e muito melhor que o roteirista. Mas ele precisa saber visualizar isso e colocar isso no seu roteiro.
No último final de semana de Fevereiro (ou este agora, ou o próximo – provavelmente o próximo), vai pras bancas a edição da Época São Paulo com esta história. Não deixem de conferir como ficou o resultado final.