Procurando Quase Nada
Saíram os indicados ao HQ MIX e este ano fomos indicados em 3 categorias: melhor desenhista nacional, melhor roteirista nacional (ambas por nossas HQs da Época SP) e melhor tira. E lá vamos nós novamente. Um aspecto realmente interessante das indicações a algum prêmio é que o seu olhar volta para o trabalho indicado, como se voltasse ao passado para dar-lhe uma nova leitura. Ficamos muito tempo produzindo cada história e quando acabamos queremos produzir outras, olhando sempre pra frente. Indicações nos colocam frente a frente com este passado, nos faz virar algumas páginas e voltar um pouco na história. História esta que não é contada somente por você, pois é uma chance de perceber que vários outros autores também estão produzindo do lado de fora das portas do estúdio. Ano passado nos trouxe de volta ao Brasil de várias maneiras. Primeiro, pra que não fique dúvida, nós nunca saímos do Brasil. Mesmo trabalhando pro exterior e publicando lá fora, sempre moramos aqui e não pretendemos mudar isso. Esse é o nosso lugar e, por isso mesmo, ficávamos um pouco chateados ao perceber que não íamos publicar nada que o público brasileiro pudesse ver. Ano passado, enquanto nossa "carreira internacional" continuava sua escalada, fomos convocados para fazer trabalhos por estas bandas em dois formatos novos e inusitados. 
Em Fevereiro ou Março de 2008 fomos convidados pra criar uma página de HQ para uma nova revista que ia sair, a Época São Paulo. Estávamos já com 3 séries em andamento nos EUA, mas a chance de fazer algo pro público brasileiro nos motivou a tentar. Depois de uma ou duas propostas rejeitadas, eles aceitaram uma linha de histórias que acabou virando nossa série Procurando São Paulo. Ao contrário de outras histórias nossas, onde tentamos não localizar tanto aonde se passa a ação, nestas histórias os cenários e a escolha de "locação" tinham tanta importância quanto as pessoas que colocávamos ali. Queríamos fazer histórias pra pensar sobre São Paulo e para que os leitores também pensassem sobre o tema de cada conto de uma página que produzíamos todos os meses. 
Nossa série Procurando São Paulo durou 8 capítulos, pois acabamos querendo contar coisas que não cabiam no formato que havíamos criado. Todas estas histórias estão disponíveis no nosso set do Flickr pra que todos que não compraram as revistas ou não são de São Paulo possam ver. 
Em Julho, quando voltamos vitoriosos da Comicon, além de flores, bolinhos e intermináveis matérias em diversos veículos, veio o convite da Folha pra gente fazer uma tira ou "alguma coisa" pra eles. Nós sempre dissemos que não fazíamos tira, que não trabalhávamos com humor. Sempre foi nosso ponto fraco. Com tudo que já estávamos fazendo (Umbrella, Daytripper, BPRD 1947, PIXU e Procurando São Paulo) nós ainda estávamos cogitando fazer uma tira?? Depois de refletir e pedir conselhos, conseguimos pensar num formato que nos agradava – pois o espaço de 3 ou 4 quadros da tira nunca foi o suficiente pra o tipo de coisa que contamos – e a periodicidade semanal, uma vez que sabíamos que não damos conta de fazer uma tira todo dia. Só faltava o título. Nunca antes havíamos pensado tão intensamente num título para um trabalho nosso. Ficava a dúvida de usar "10 Pãezinhos" ou escolher algo novo, mas então o quê? 
Nossas tiras não contam piadas, não contam histórias, são só relances, detalhes e recortes. Sempre quisemos mostrar que é possível tratar de quase tudo em Quadrinhos, mas pode parecer que nas nossas tiras falam de Quase Nada. Foi mais ou menos assim que surgiu o título. 
Fazer a tira tem sido uma das melhores experiências profissionais dos últimos tempos e estamos muito felizes com o retorno que temos tido. Começamos a publicar em Setembro de 2008 e, em Dezembro, as tiras começaram a ser publicadas também no nosso blog e no nosso Set do Flickr para que mais gente pudesse acompanhar. As pessoas estranham quando o Fábio e eu concorremos como se fôssemos uma pessoa só (melhor roteirista ou melhor desenhista), mas o fato é que nunca fizemos um trabalho onde compartilhamos tanto o trabalho quanto estas histórias da Época SP ou estas tiras. Ali, realmente não importa quem faz o quê e a gente está muito em sintonia, tanto nos roteiros quanto nos desenhos. No fundo, este sempre será nosso diferencial, essa cabeça com dois cérebros num corpo que desenha com a mão direita e com a esquerda. Ser indicado a um prêmio dá aquele calorzinho aqui dentro, uma pequena prova de que você está atingindo os outros e eles querem lhe dizer isso. Com tanta coisa acontecendo lá fora, saber que as coisas que produzimos aqui no Brasil tem deixado sua marca nos leitores é a maior recompensa.
Escrito por Gabriel Bá às 11h41 [ ]
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