Muito antes do 5 ganhar um Eisner Award, nós já tínhamos decidido fazer outro projeto juntos. A experiência da colaboração foi tão gratificante que já voltamos da convenção de San Diego daquele ano pensando no que iríamos fazer para o ano seguinte. Com um ano pela frente, podíamos planejar tudo com mais calma para evitar a loucura inerente a qualquer projeto criativo envolvendo várias pessoas.
Capítulo 3 - PIXU!
Só em fevereiro de 2008 voltamos a conversar sobre o projeto e colocar idéias na mesa. Sabíamos que queríamos fazer algo maior, mais ambicioso. Sabíamos que precisávamos de palavras desta vez (o 5 não tem texto, são HQs contadas só com imagens), pra desenvolver melhor a história. Vimos o que todos gostariam de desenhar e chegamos em um ponto em comum: terror.
A Becky e o Vasilis gostam de Lovecraft, de monstros e vampiros. O Fábio e eu temos medo do escuro, daquilo que você não vê, não sabe o que é, mas imagina. O terror do inomimável. Foi diante deste suspense em relação aos monstros invisíveis que se escondem nas sombras da nossa imaginação que nasceu o PIXU
No meio de todos os outros projetos em que estávamos envolvidos (Umbrella Academy, Casanova, Daytripper, Procurando São Paulo, DEMO), nos esforçamos pra fazer as 108 páginas de tensão, mistério e terror, dividida em vários capítulos intercalados de cada um dos quatro autores. Trabalhando em três continentes diferentes (nós em São Paulo, a Becky em Nova Iorque e o Vasilis em Atenas), o enorme quebra-cabeça foi se formando e a imagem que se formou vai ficar na sua cabeça mesmo depois de fechar o livro. Descobrimos que, apesar de trabalharmos normalmente em gêneros muito mais leves e tratarmos de temas mais alegres e positivos, o terror engloba uma gama narrativa e gráfica muito foda de trabalhar em Quadrinhos. O ritmo de leitura dos Quadrinhos é perfeito pra criar o suspense que a história pedia. E pudemos usar toda a beleza que a arte em P&B nos oferecia.
Lançado independentemente em duas edições em 2008, PIXU foi indicado ao Harvey Award de melhor antologia (o resultado sai dia 10 de Outubro, 4 dias antes do lançamento). Este ano, a Dark Horse lançou uma versão encadernada de capa dura do PIXU e agora o terror chega ao Brasil pleas mãos da Devir. Temos dois lançamento, com a presença dos quatro autores!
dia 10 de Outubro, no FIQ em Belo Horizonte, às 18h no nosso estande. e dia 14 de Outubro, durante a semana HQ O QUÊ? da FNAC Pinheiros, às 19h. Teremos um bate-papo com os autores, perguntas e depois a sessão de autógrafos.
Desde que conhecemos a Becky em 2003 ou 2004, depois o Vasilis no ano seguinte, conversamos sobre eles virem ao Brasil ou a gente ir pra Grécia, passarmos um tempo juntos pra produzir uma próxima HQ num único lugar. Quando estamos reunidos, é um turbilhão de idéias que surge da sintonia que flui entre nós quatro. Dia 7, eles chegam no Brasil pra laçarmos o PIXU e pra, quem sabe, fazermos o próximo capítulo desta história.
Depois de tanto burburinho internacional, finalmente estamos com novos lançamentos aqui no Brasil. Duas publicações que fizemos no exterior e que agora estamos felizes em publicar no Brasil.
A primeira é o Umbrella Academy, escrita pelo Gerard Way e que eu desenho. Vamos lançar pela Devir o primeiro volume da série, "Suíte do Apocalipse".
A segunda publicação é o PIXU, HQ de terror que o Fábio e eu fizemos com a Becky Cloonan e o Vasilis Lolos. Os lançamentos das duas HQs acontecerão em dois eventos muito bacanas.
Em São Paulo, vamos participar da semana HQ O QUÊ? organizada pela FNAC de Pinheiros. Dia 7 de Outubro temos o evento do Umbrella Academy. Dia 13 de Outubro tem o lançamento do RETALHOS, com a presença do autor, Craig Thompson. E dia 14, quarta feira, faremos o lançamento do PIXU, com a presença de todos os autores. Cada um destes lançamentos será precedido de um bate-papo com os autores sobre o trabalho.
O segundo evento é o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de Belo Horizonte, que acontece de 6 a 12 de Outubro. Você pode conferir o cronograma completo aqui. Faremos o lançamento do Umbrella na sexta, dia 9 de Outubro, às 19h e o do PIXU no sábado, dia 10, às 18h. Todos os autores do PIXU e do 5 participarão de uma mesa sobre Indy Comics no domingo, dia 11, às 16:30h. Depois desta mesa, estaremos assinando no estande da Livraria Savassi, na tenda do festival.
O Gerard queria ter vindo, mas o cronograma de gravação do novo álbum o impediu de vir, mas nós gravamos um vídeo pra convidar a todos pros lançamentos.
É isso aí. Se você é de SP ou BH, apareça nos lançamentos, participe do bate-papo, faça perguntas e leve seu gibi autografado. Se não é, estes são dois eventos cheios de autores nacionais e internacionais, um bom motivo pra você sair de casa e conseguir sua cópia autografada e saber um pouco mais do maravilhoso mundo das Histórias em Quadrinhos. E também estaremos em Curitiba dia 28 de novembro, mas a gente divulga melhor quando estiver mais perto.
Em Dezembro, começa a ser publicada nos Estados Unidos a nossa nova série, chamada Daytripper. A imagem acima é a capa do primeiro número. Já estamos trabalhando nessa história há um tempão e é muito bom poder começar a mostrar alguma coisa. Pra quem quiser ver as três primeiras páginas (em inglês), clique aqui.
Você pode hoje fazer Quadrinhos de qualquer lugar. Se não existe mercado de Quadrinhos na sua cidade (ou estado, ou mesmo país), você pode procurar e encontrar trabalho pela internet. Eu ainda mandei portfólios pelo correio, mas hoje quase toda descoberta é virtual.
E isso é muito libertador.
Agora, você pode fazer o seu gibi na sua casa, trancado no seu porão criativo, e mandar para qualquer lugar, mas você também pode, com a mesma facilidade virtual, trabalhar junto com outras pessoas que estão do outro lado do mundo.
Isso é melhor ainda.
E foi isso que tentamos fazer com a Becky Cloonan, uma americana morando em New York, e com o Vasilis Lolos, um grego morando em Atenas. Em 2007, iríamos todos para a convenção de San Diego, e queríamos fazer um gibi juntos para lançar lá. O Grampá ia também (acabou não indo), então ele também entrou na brincadeira. Começamos a pensar no gibi que faríamos os cinco...
(rascunho da capa do Grampá)
Essa idéia de que a comunidade dos Quadrinhos estava crescendo para além das fronteiras de qualquer mercado nacional nos levou a pensar numa revista que funcionasse em qualquer país. Daí, a resolução de fazer o gibi sem falas (como já havíamos feito com o ROCK'n'ROLL). Poderíamos vender o gibi no Brasil, nos Estados Unidos, na Grécia e em qualquer outro lugar.
O nome do gibi foi fácil. A partir daí, tudo correu rapidamente e, de repente, alguém teve essa idéia das histórias autobiográficas, mas com um artista desenhando a história sobre o outro. Em cada dia-a-dia, em cada canto do mundo, cinco artistas se deparavam com a maravilhosa rotina de criar Quadrinhos. Fazer histórias em Quadrinhos é mágico, é ótimo, inspira os artistas e, se tudo der certo, os leitores. Queríamos fazer um gibi sobre o nosso amor pelos Quadrinhos, um amor que sobrevive ao período em que a Becky foi para a prisão, que supera as dificultades que o Vasilis teve com sua nave espacial, ou mesmo as peripécias de um pássaro recém nascido no nosso estúdio.
Foi daí que surgiu 5.
Vendemos a revista aqui no Brasil e foi o máximo. Vendemos a revista durante a convenção (e durante muitas outras convenções que a Becky foi nos Estados Unidos). O Vasilis voltou pra Grécia e espalhou mais revistas por lá. Cada um tinha vários outros compromissos, outros trabalhos, mas cada um conseguiu contribuir. Conseguimos o que queríamos: fazer um gibi junto com os nossos amigos que estavam com tanto tesão como a gente pra fazer Quadrinhos. Podia ter ficado nisso que já estava muito bom.
A melhor sensação do mundo é aquela que você pode compartilhar com alguém. O amor é sempre melhor se compartilhado, se recíproco; a dor se ameniza quando você a coloca pra fora e encontra um ombro amigo; a amizade que torna momentos corriqueiros em lembranças que guardamos com carinho.
Fazer Quadrinhos é bem solitário, introspectivo, e a maioria dos autores trabalha sozinha. A beleza dos Quadrinhos, essa auto-suficiência em que você só precisa de papel e caneta, e que a partir daí você pode criar o mundo, essa liberdade criativa dá possibilidades infinitas, mas ao mesmo tempo ela normalmente representa horas e horas, dias e dias, sentado na prancheta, mergulhado no seu mundo interior, sozinho, produzindo. Ter alguém para dividir a solidão é raro, mas o mais difícil é encontrar a sintonia necessária para que a energia da criação não se perca quando você a compartilha. No final, o trabalho deve ainda parecer um só, feito pelo "autor", mesmo que o "autor" seja mais de uma pessoa. Acho que essa é a maior qualidade do relacionamento de trabalho que eu tenho com o Bá. Nós queremos contar histórias, queremos fazer Quadrinhos, e nosso trabalho acaba se misturando, nossa voz acaba se mesclando, e a obra é feita por um autor que talvez não existisse se trabalhássemos sozinhos. Para quem lê, fica a dúvida de quem fez o quê, mas sempre esperamos que essa dúvida logo desapareça e se torne desimportante no momento em que o leitor mergulha na história.
Essa simbiose no trabalho é uma fonte interminável de inspiração, de apoio mútuo, uma competição não para superar, mas para surpreender o outro e, no processo, surpreender a si mesmo. Acima de tudo, a criação compartilhada torna o trabalho uma diversão, um jogo, uma conversa que sempre nos leva a caminhos novos. Eu acho muito difícil encontrar esse tipo de sintonia e por isso valorizo tanto todos os trabalhos que faço com o Bá, e achava impossível encontrar outros autores que funcionassem desse jeito.
Foi então que eu li NEBULI.
NEBULI é uma revista independente que a artista americana Becky Cloonan fez com o artista grego Vasilis Lolos. Na verdade, NEBULI é um fanzine, mas uma das grandes façanhas do gibi é que logo nas primeiras páginas você esquece isso e mergulha de cabeça. A primeira vista você não sabe quem fez o quê, quem escreveu, quem desenhou. Passadas as primeiras páginas, você não se importa mais com isso. Pra você, só importa o que os dois astronautas vão fazer a seguir, o que eles vão dizer, e o que eles, e deste modo nós, vamos descobrir.
De uma maneira simples e despretenciosa, NEBULI é genial. Para o leitor, ele é um presente, uma surpresa, uma série de histórias espaciais que refletem justamente a intimidade entre pessoas, entre amigos ou amantes, e como a vida é uma eterna descoberta. A cada conversa dos personagens, a cada "Hey, John?", outra pérola. Para outros quadrinistas, NEBULI é um tapa na cara, um chamado, uma mostra do que é possível quando você faz quadrinhos porque você ama o que faz, e como duas pessoas podem se misturar tão bem, criar como se fossem apenas uma mente brilhante, e como essa energia compartilhada inspira outros. Eu já tinha visto outros trabalhos da Becky, tinha lido DEMO, onde ela colaborava com o Brian Wood, e já tinha ficado super impressionado com o trabalho dela e como ela mergulhava nas histórias do Brian. Mas nada se comparava a Nebuli.
Eu e o Bá ficamos atônitos. Nos olhamos em silêncio, embasbacados, emocionados com a força emocional daquele pequeno fanzine.
NEBULI, por Becky Cloonan e Vasilis Lolos.
Só havia uma coisa a fazer, e nós dois sabíamos disso.
Logo que recebemos o convite, eu pensei no Astronauta. Para mim, era o visualmente mais interessante de trabalhar. Ouvi dizer que tem várias histórias do Astronauta no álbum MS50, então eu não devo ser o único que queria desenhar espaço, naves e uma roupa redonda.
O Sidney, que organizou o álbum, tinha a esperança que fizéssemos uma história com o Rolo e com a Tina. Acho que queria a boemia das nossas outras histórias, o romance jovem, o relacionamento a dois. Eu gosto de trabalhar as experiências humanas, as conquistas, as falhas, os desejos e sonhos das pessoas, mas não preciso sempre usar o relacionamento e os jovens para colocar isso no papel. Com o astronauta, eu posso explorar tudo isso.
O astronauta é, afinal, um explorador.
O Bá ficou com o desenho da história, e a primeira imagem que ele teve foi a daqueles mergulhadores, escafandristas, e suas roupas para explorar as profundezas do oceano. Os rascunhos todos partiram daí.
A história está no álbum. Fizemos com o carinho da lembrança de uma infância rodeada pelo universo do Maurício de Sousa. Lá atrás, aqueles dois moleques gêmeos leram muita Mônica, fizeram planos infalíveis e sonharam com o futuro.
Novelas Gráficas. Esta é a tradução literal do termo Graphic Novel, criado a partir do álbum "Contrato com Deus", de Will Eisner, pra definir as Histórias em Quadrinhos com narrativas mais longas, mais sérias e profundas, com tom mais humano. A Novela enquanto gênero literário, é uma narrativa cujo tamanho é mais longo que um conto, mais curto que um romance, surgida no Renascimento, mas desenvolvida a fundo nos séculos XVIII e XIX. Aqui no Brasil novela é aquilo que a gente assiste na TV.
Tudo isso que escrevi acima influenciou, de certa forma, o tipo de história que o Fábio e eu contamos. Também pode servir pra descrever o Umbigo sem Fundo, do Dash Shaw, que acabou de ser lançado pela Quadrinhos na Cia.
É a história de um casal, David e Maggie Loony, que decidem se separar depois de 40 anos casados, e de como seus três filhos reagem a essa decisão. Madura e muito bem contada – principalmente se levarmos em conta que o autor tinha 23 anos quando a escreveu – é uma história profunda que reflete sobre família, relacionamentos e diferenças, mas, principalmente, sobre mudanças. Usa de forma maestral a parte gráfica dos Quadrinhos, o espaço em branco da página, desenhos misturados com textos e palavras como elementos gráficos. Tudo isso num talalau de 720 páginas.
Fomos convidados pra participar de duas mesas redondas com o Dash Shaw pra conversar sobre esse livro.
A primeira é o Café Literário Umbigo Sem Fundo: Trauma e trama, que acontecerá durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, neste sábado, dia 12 de setembro, às 14h. Se você mora no Rio ou estiver de passagem pela Bienal, apareça.
A segunda acontece em São Paulo, no dia 15 de setembro, terça-feira, na Saraiva Megastore do Shopping Pátio Paulista, às 19:30h.
Fiquei muito feliz com o convite e gostei muito do livro. Muitas vezes, você esquece que está lendo uma HQ, parece que você está assistindo um filme ou, até mesmo, uma novela. Tem os personagens ridículos, os bobos, os carismáticos. Os momentos pra rir e aqueles pra chorar. Se você, como eu, acredita que é possível contar histórias adultas e sérias em Quadrinhos, não deixe de ler Umbigo sem Fundo. E dê uma passada no bate-papo pra comentar o que você achou do livro.
Ontem à noite, terminamos a jornada no Anibal, bar ali da Pompéia, pra encontrar o Grampá, o Rafa Coutinho, o Gustavo Duarte, o Orlando Pedroso e o Rodrigo Rosa (que está em visita de Porto Alegre, e que lançou ontem sua adaptáção em Quadrinhos de "O Cortiço"). Cheguei primeiro, sentei, pedi uma comida (recomendo os hamburguers) e rabisquei esse sujeito no papel na mesa. Acho que ele vai acabar aparecendo numa página da minha história na semana que vem.