2012, o ano em que o mundo não acabou.
Reflexões sobre o ano, já sabendo que vou esquecer de algo. - NO BRASIL: O mercado Brasileiro de Quadrinhos está mudando, amadurecendo, enxugando. Ainda está melhorando, mas não na mesma velocidade e na mesma direcão que estava seguindo até então. Por um lado, não parece mais o "milagre do crescimento" dos últimos 3 anos, uma festa cheia de gente, de novas revistas, de eventos e festivais. Fazer Quadrinhos é muito legal sim, mas não é fácil e vemos mais uma vez que muita gente vai ficando pelo caminho, que nem todos têm braço pra atravessar a rebentação. Vemos mais livros longos, menos revistas independentes pequenas. E com menos eventos, vemos menos a produção espalhada pelo país todo. Muita gente estava esperando ansiosamente a Rio Comicon e ficou a ver navios. Outros festivais e eventos ocorreram em outras partes do país, mas não levaram tanta gente quanto o FIQ costuma levar ou mesmo a Rio Comicon, nem público, nem artistas, nem a mídia. Não acho isso ruim, pois acho que nem todo evento precisa ser gigante. Os grandes eventos dos últimos 3 anos fizeram parecer que era fácil fazer Quadrinhos, vender milhares de revistas, ganhar uma grana. Não é tão simples assim. Eventos maiores dão retornos maiores e este ano o eco dos eventos foi menor do que dos anteriores. O Quarto Mundo acabou, e celebrou sua última festa na Livraria HQ Mix, que havia sido praticamente o templo de lançamentos do grupo, e que também vai fechar suas portas físicas por uns tempos. Publicar Quadrinhos nunca foi tão fácil, mas continuar produzindo não ficou mais fácil, talvez até tenha ficado mais difícil, pois a competição cresceu, os produtos melhoraram. Os pequenos cresceram, estão aos poucos querendo virar gente grande, e os Quadrinhos estão ganhando um pouco mais de destaque nas livrarias, mas as pequenas lojas se tornaram ainda mais heróicas. É preciso apoiar sua loja de Quadrinhos, na sua cidade, no país inteiro. Novas editoras surgiram, outras sucumbiram. Não tem fórmula, não tem regra. O CATARSE se tornou o grande patrocinador de novos projetos de Quadrinhos, de todos os formatos, tamanhos e preços. É a sede de consumo que vimos em convenções, mas numa situação virtual de pré-venda. Já são mais de R$230.000 arrecadados em projetos de Quadrinhos. Quem criou um público cativo na internet arrecada o dinheiro com uma mão nas costas e quem está reunindo material pronto já sai na vantagem, mas quem não é bom de vender o peixe suou a camisa pra arrecadar as pequenas fortunas que estão patrocinando as revistas que veremos no mercado em 2013 (pois muitos ainda tem que produzir as histórias). Saiu o "Astronauta-Magnetar", primeira Graphic Novel com os personagens do Maurício de Sousa, feita pelo Danilo Beyruth. Eu não li ainda, mas sei que vendeu bem, continua vendendo bem, num volume que nenhum outro Quadrinhista nacional vai conhecer tão cedo. Acho que não podia ter começado com um autor melhor, pois ele é maduro, sério e está num ótimo momento. Seria uma ótima história de ficção-científica por si só, e que venderia seus 2, 3 mil exemplares com louvor, com chances de mais uma tiragem de 3 mil que duraria alguns anos. Sendo o personagem do Maurício, já vendeu uns 30 mil. Acho ótimo e espero mesmo que isso reverta em mais público pro Danilo. E espero que os três próximos álbums continuem nesse caminho de seriedade e sucesso. NOS EUA: - Terminamos mais uma série do Casanova, fechamos um ciclo. Ironicamente, nesta história de viagens interdimensionais, trabalhar nesta série parece sempre uma viagem no tempo, tão emocionante e ao mesmo tempo conturbada quanto foi em 2006. Tudo na nossa vida mudou, na do Matt também, mas nada ficou mais fácil, mais simples. Ficamos muito felizes por termos fechado o contrato pra publicar a série aqui no Brasil (com a Panini), para estes três arcos da história. O primeiro acabou de sair e é só uma questão de tempo pra sairem os outros dois. Estamos trabalhando novamente com o Mignola, neste tipo de situação difícil de acreditar, desta vez escrevendo também a história, brincando no jardim dele, no mundo do Hellboy. É muito emocionante, uma honra e muita responsabilidade. É uma situação muito parecida com a do Danilo fazendo a história do Astronauta (aliás, é exatamente a mesma coisa). Sabemos que grande parte da atenção pro projeto, do público, é diretamente ligada ao Mignola, ao Hellboy, mas o importante foi ser escolhido pelo autor pra fazer esta história, saber que ele gosta do nosso trabalho e confia no que podemos fazer. E sabemos que, neste caso, nós ganhamos novos leitores que lembrarão do nosso nome em próximos projetos, já vimos isso acontecer (no Umbrella, no Casanova, na outra mini-série do BPRD: 1947, que trouxeram novos leitores pro De:Tales e pro Daytripper). O mais importante é saber balancear o trabalho autoral com o mais comercial, um pouco de Hellboy aqui, um Daytripper ali, um Astronauta hoje, o São Jorge amanhã (próximo projeto do Danilo, pra ficar de olho). Precisa continuar produzindo coisas novas, mesmo que demore tempo. Nós ainda não temos o "próximo Daytripper", mas os Casanovas, BPRDs e Umbrellas ajudam a nos manter nos olhos do público, segurando leitores e ganhando novos, pra quando finalmente tivermos uma nova história. E ela virá, mais cedo ou mais tarde, na hora certa. NO MUNDO: - Um trabalho contínuo, mesmo que pequeno, começa a dar frutos maiores, ecoar mais e mais longe, e temos visto isso cada vez mais nos últimos anos. Ter uma carreira internacional até 2010 significava publicar aqui e nos EUA, ir uma vez por ano pra Comic Con de San Diego e trabalhar o resto do ano por aqui. A partir de 2010, essa situação mudou drasticamente, quando começamos a ser convidados pra outras convenções e eventos de Quadrinhos ao redor do mundo. O mercado americano é um trampolim pra outros públicos, outros mercados. Aos poucos, começaram também as edições internacionais dos nossos livros, sendo o Daytripper nosso melhor produto de exportação. Adianta pouco (pra não dizer que não adianta nada) ir a um evento onde ninguém leu sua história, ninguém pode encontrar seu livro, e é neste quesito que o Daytripper tem mudado nossa carreira dramaticamente. As pessoas continuam encontrando o livro, tanto a edição original americana, quanto novas edições estrangeiras. E aqui no Brasil ainda tem gente descobrindo o livro todos os dias, um ano e meio depois dele ter sido lançado. Estamos aprendendo muito com nossas viagens, vendo festivais diferentes, conhecendo autores diferentes, culturas diferentes. Os eventos são muitos, os convites também. Se deixasse, viajaríamos muito mais, pelo Brasil e pelo mundo, mas também precisamos trabalhar. Tudo isso nos empolga muito a continuar produzindo, querendo fazer algo novo, sabendo que ainda há muita coisa pra fazer, muitas histórias pra contar. Tem a hora de desbravar novos mundos e tem a hora de se recolher e produzir os novos livros. Em 2012 recusamos muitos convites pra poder trabalhar um pouco mais, e sabemos que em 2013 ainda temos muito trabalho pela frente. Temos também algumas viagens já programadas, e esperamos poder fechar um outro ciclo e começar um novo momento. Em especial, vamos pro Festival de Angoulême, na França, do melhor jeito que podíamos imaginar: com um livro publicado no mercado francês, vendendo bem, concorrendo na premiação principal do festival. Todo esforço que fizemos pra conquistar o mercado americano, indo por 15 anos bancando tudo do nosso bolso, com a pasta de portifólio debaixo do braço, não queríamos ter que fazer tudo de novo na França. Sendo assim, o Fábio começou as aulas de francês em 2006. Este ano, já convidados pra Angoulême, vi que não bastava um de nós falando e entendendo a língua, eu também comecei minhas aulas, meu intensivo. Allons-y! Não podia ter dado mais certo. E a cereja do bolo é ter vários outros brasileiros pra nos fazer companhia, todos como autores. Rafa Coutinho lançou a Cachalote na França este ano; Julia Bax e Amanda Grazini produziram uma HQ diretamente pra lá, André Diniz publicou o Morro da Favela (e que também tem uma edição inglesa). A minha dica pros autores nacionais é esta: tomem coragem pra desbravar o mundo. A América do Sul tem mercados completamente diferentes e eles NUNCA VÃO DESCOBRIR O SEU GIBI se você não for até lá mostrar, mesmo sendo aqui do lado (é a mesma coisa com os eventos no Brasil, mas acho que isso os autores já descobriram). Nem só de super-heróis vive o mercado norte americano e não existe só a San Diego Comic Con. Existem várias editoras legais, autores independentes e muitas convenções mais alternativas espalhadas pelo continente. Pesquisem, se agrupem, montem comitivas pra não ter que fazer tudo sozinhos, mas saiam das suas casas, de suas cidades, do país. É o único jeito do Quadrinho brasileiro ganhar o mundo. NA ARTE: - Este ano participamos de três exposições. Sem o Fábio, participei da exposição "Arte e Cinema pelos Posters", no MIS (Museu da Imagem e do Som), que contava com 20 artistas de diversas áreas reinterpretando pôsteres de cinema. Participamos de uma exposição de originais de Quadrinhos no Rio de Janeiro. E finalmente, fazemos parte da exposição de inauguração do Gabinete do Desenho, novo museu em São Paulo dedicado a todas as formas de expressão do desenho. Dentre as obras do acervo do museu, desenhos do Miró, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e muitos outros artistas já consagrados. No meio deles, páginas originais do Daytripper, rascunhos, esboços e capas. A valorização do processo, da arte. Com estas duas exposições, vi meu trabalho (e os Quadrinhos) em outro âmbito, outro patamar, sob o olhar de arte, do patrimônio, da história, e não só de produto ou produção de massa, descartável. NO TRABALHO: - Depois de terminar o Daytripper em meados de 2010, parece que ficamos 1 ano e meio quase que exclusivamente promovendo o livro e colhendo os frutos de um trabalho bem feito. O trabalho sempre faz mais barulho quando o autor está do lado. É a diferença de ouvir uma música no rádio ou em um show ao vivo, num estádio, num grande festival. A energia é incrível, contagiante, mas isso não nos sustenta, nem monetariamente, nem profissionalmente, nem conceitualmente. Fizemos mais uma série do Casanova, estamos fazendo a nova série com o Mignola e a avassaladora adaptação do Dois Irmãos, do Milton Hatoum. Tivemos que nos recolher, ir a menos festivais, limitar nossa presença e focar um pouco mais nas novas histórias. Os eventos são muito importantes pra criação de público e pros autores, pra editoras, e nós adoramos dar palestras, falar sobre nosso trabalho e tentar transmitir nossa paixão pelos Quadrinhos, mas nada disso adianta nada sem novas histórias. O trabalho continua sendo o mais importante. E o trabalho não ficou mais fácil depois deste tempo todo. Em um último fôlego, lançamos em Dezembro um trabalho diferente dos nossos outros, um livro ilustrado, um relato de viagem, nosso livro de São Luís, parte da série "cidades ilustradas", da editora Casa 21, talvez o de mais belos desenhos, trinta retratos da cidade feitos em aquarela e textos contando um pouco do que vimos em nossa passagem por lá. A série "cidades ilustradas" retrata bem a dura realidade do Quadrinho Nacional: um projeto super legal que já existe há mais de dez anos, com autores internacionais, trabalhos lindos e que ninguém conhece. Desta vez, a Casa 21 fez uma parceria com a editora Zarabatana pra distribuir o livro pra, quem sabe, poder chegar a mais gente. Estamos orgulhosos do resultado, de mais um trabalho, de fazer algo diferente e poder dialogar diretamente com o público nacional. NA INTERNET: - Usem a internet pra o que ela serve melhor: se conectar. Divulgação, fazer contatos, pesquisar. Fora isso, a internet não vai resolver sua vida, nem fazer o seu trabalho por você. Não importa quantas pessoas leram seu texto, quantos "likes" sua imagem teve, quantos seguidores você tem. Isso não quer dizer nada. Isso é hoje e em um segundo já mudou, não é mais. Hoje o CATARSE parece ser a salvação da lavoura dos Quadrinhistas independentes, mas só veremos se esse negócio vai dar certo mesmo daqui alguns anos. O bom trabalho precisa de tempo pra amadurecer, o autor precisa de tempo pra ter o que falar. Não precisa ter pressa. O mundo não vai acabar.
Escrito por Gabriel Bá às 21h25
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Reflexões dos anos que nos trouxeram até aqui
Reflexões de fim de ano nos assombram e este blog traz muitas, boas e ainda relevantes indagações sobre nossa paixão e profissão: Em 2004, pensamos nas surpresas que o ano seguinte nos traria; na importância de se fazer notar aos olhos do troféu HQ Mix e que, para isso, você devia enviar sua HQ para a comissão julgadora; "Quem sou? Onde estou? Pra onde vou?"; E aproveitamos o novo público do blog pra lembrar de entrevistas e resenhas antigas sobre nossos livros.  Em 2005, nos perguntamos sobre o futuro dos Quadrinhos, usando inclusive imagens que eu estava fazendo pra criar o universo do Casanova (lançado no Brasil agora em 2012); Os desafios da produção de um gibi mensal que nos aguardava;  Em 2006, depois de fazermos o CASANOVA e O ALIENISTA, terminamos o ano falando pras pessoas contarem suas próprias histórias; fizemos campanha no prêmio Angelo Agostini para nossos lançamentos daquele ano, Mesa para Dois(Devir) e "Um Dia, Uma Noite" (independente); E notamos que o importante não é quanto tempo você demora pra fazer sua HQ, mas é fazer bem feito e, principalmente, fazer até o fim.  Em 2007, um grande ano, dez anos de 10 Pãezinhos; lançamos o Alienista, o 5 e a edição especial "10 Pãezinhos: FANZINE"; Indicação ao Eisner Award, Angelo Agostini e HQ Mix. Entertainment Weekly TOP 100; 2ª edição do "Girassol e a Lua" e do "Meu Coração, Não Sei Por Quê."; Trabalhamos muito em 2007, lançamos nos Estados Unidos o Umbrella Academy e o Sugar Shock! Reverenciamos os mestres Laerte e Mutarelli; O ano foi ótimo. 2008 seria melhor?  Em 2008, ganhamos o EISNER; ganhamos o JABUTI; Começamos a publicar nossa tira QUASE NADA na Folha de São Paulo, o que mudaria pra sempre nosso contato com o público; será que estava mudando a opinião geral sobre os Quadrinhos no Brasil?  Em 2009, fomos convidados da San Diego Comic Con; convidados da FLIP; começamos a lançar o Daytripper nos EUA; Mobilizamos pessoas; Tivemos uma das melhores experiências no FIQ, com um estande cheio de lançamentos e autores; Vimos os brasileiros que trabalham com super-heróis nos EUA finalmente terem seus trabalhos reconhecidos.  Em 2010, o Daytripper mudou nossa vida; começamos a viajar mundo afora em convenções internacionais de Quadrinhos; Vimos o mercado nacional de Quadrinhos estourar em eventos como a Rio Comicon; Nomes como Gustavo Duarte, Rafael Coutinho, Eduardo Medeiros, André Dahmer, Odyr e, sempre, o Laerte, fazendo trabalhos completamente diferentes e, por isso mesmo, incríveis.    2011, realmente, foi um ano como nenhum outro. Foi o ano de colher os louros; de viajar muito divulgando o trabalho; da explosão das convenções de HQ no Brasil; Lançamos o Daytripper no Brasil;       E 2012? Como foi? Estamos refletindo. 
Escrito por Gabriel Bá às 12h54
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