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Olhos de ressaca



Escrito por Fabio Moon às 10h50
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Mais uma vez, CCXP.

Sim, foi épico. Cada ano que passa, mais épico.

Passados dois dias de ressaca, recuperados da exaustão física e mental, já é possível falar sobre a CCXP 2016, que aconteceu semana passada em São Paulo. Durante quatro dias, minha vida rodou em volta da CCXP. A verdade é que a CCXP vive no pensamento das pessoas durante o ano inteiro e uma semana antes do evento eu já parei de desenhar a HQ em que estou trabalhando, tomado pelos preparativos para o evento. Decidido a criar uma imagem nova pra promover o Dois Irmãos, fechando os pedidos de livros, escrevendo para os amigos que estariam no evento e programando nosso calendário e nossos compromissos, o evento invadiu minha rotina no fim de Novembro e ainda hoje ecoa nas pequenas pendências que precisam ser resolvidas. 

Na sua terceira edição, o evento está fincando definitivamente o pé no calendário cultural do país, tal qual a Feira do Livro, a Bienal de Arte de São Paulo, o Rock in Rio ou o LollaPalooza. Parte inegável dessa força vem do tamanho da CCXP, que já no próprio slogan diz a que veio: ÉPICO. O evento cresceu muito. O pavilhão do SP Expo, em reformas no ano passado, ficou muito maior, o que permitiu que o evento crescesse em todas as direções. Mais expositores, mais público, mais salas para os bate-papos, master classes e painéis. Enormes estandes de estúdios, filmes, bonecos, games e roupas se agigantavam por todos os lados, dando o caráter de parque de diversões do evento. Filas para o Harry Potter, filas pro Assassin's Creed, filas para todas as atrações. Atrações estas, diga-se de passagem, que eu nem sei exatamente o que eram, pois eu só passava à margem, nas viagens de chegada ou saída, indo para um painel ou ao banheiro. Mini Con? Espaço Mangá? Arena de Games? O evento cresceu tanto que posso dizer com segurança que não vi tudo que tinha nele. Não tive tempo de passear, de explorar, de descobrir.

Assim como outras Comic Cons ao redor do mundo, o Quadrinista que está ali expondo seu trabalho tem sua experiência limitada exclusivamente à sua mesa no Artist Alley, sua interação com o fã de Quadrinhos que o procura e espera na fila em busca de um autógrafo. E a procura é tanta que não é possível nem ver direito as outras mesas, os outros profissionais e seus livros. Com os mais de 400 livros que levamos, e uns 300 pôsteres, eu passei quatro dias em pé (sim, em pé. Qualquer dia explico porquê), assinando HQs praticamente ininterruptamente. Outros passaram o evento inteiro sentados, de cabeça abaixada, desenhando ou escrevendo dedicatórias. Não entenda isso como uma reclamação, somente uma constatação. Todos os artistas "presos" no Artist Alley estão transbordando de alegria, extasiados com a enorme quantidade de novos leitores, de fãs interessados no seu trabalho, de gente lhes dando atenção. O mercado nacional de Quadrinhos é pequeno e difícil, e uma experiência como essa é, sem dúvida, uma luz que vem do céu e aponta para um paraíso onde tudo funciona, uma grande bolha que dura quatro dias. Mas a CCXP continua exaustivamente longa, das 10h às 22h, exaurindo diariamente toda energia que ela mesma fornece aos autores durante o dia e limitando uma possível interação social pós-evento. Interação que é, na minha opinião, fundamental para a saúde dos autores e do mercado. 

 

ccxp-2016-epico

Este ano as salas e auditórios para os painéis mudaram para o mezanino, isoladas do pavilhão principal. Como a programação foi divulgada dois dias antes do evento começar, quem não saiu da sua mesa pode nem ter pisado no mezanino e nem ficado sabendo que ali aconteceram encontros e conversas. É o preço da expansão do evento, se espalhando, se separando, mudando um pouco a cada ano, ainda procurando um formato. Gostaria de ter visto a master class de narrativa do Eduardo Risso, ou a de roteiro do Brian Azzarello, mas eu estava na minha mesa, em pé, assinando livros. Espero que o público – e Quadrinistas mais iniciantes – tenha aproveitado bem as várias oportunidades que o evento proporciou.

Uma destas palestras ocorreu no auditório Ultra e foi o painel sobre o Dois Irmãos e suas adaptações, com a presença do próprio Milton, da Maria Camargo, roteirista da minissérie, e do Cauã Reymond, que interpretará os gêmeos na fase adulta. E foi incrível. É sempre bom ouvir o Milton falando sobre a história, aprender um pouco mais com ele. E poder compartilhar a paixão pela história com a Maria Camargo e a consciência de participar de um projeto especial com o Cauã. Foi um encontro de linguagens que eu e o Fábio estávamos planejando desde 2014, quando terminamos a HQ e já tínhamos conhecimento da série. Um encontro perfeito para a festa de cultura pop que é a Comic Con. E ainda fomos agraciados com um clipe exclusivo da série feito para o painel, montado com uma liguagem que apelasse ao público ali presente, com pinceladas gráficas retiradas da nossa HQ. Foi de arrepiar ver uma coisa tão simples como o logo da Globo em PB, partido ao meio, como a minha capa.

ccxp-2016-doisirmaos

O painel sobre o Dois Irmãos foi um dos nossos únicos compromissos fora da nossa mesa. Demos uma entrevista no estande da UOL na quinta-feira e fizemos duas demonstrações de desenho na WACOM, falando sobre nosso processo de trabalho e nossa adaptação à nova ferramenta. O resto do tempo, estávamos na mesa no Artist Alley, facilmente identificada por grandes painéis com imagens dos nossos livros e nossos nomes, presente da convenção para todos os convidados. Certamente ajudou a nos encontrar naquele mar de mesas e autores. Ficamos ali dando atenção ao público, enorme, que continua a nos supreender formando filas, trazendo suas HQs ou descobrindo nosso trabalho pela primeira vez. O público cheio de carinho, formava filas antes de chegarmos e esperava paciente, felizes quando sua vez chegava e com as dedicatórias e desenhos. Temos uma carreira de 20 anos, mas sempre nos alegra conhecer novos leitores, rever os antigos, ver nosso trabalho chegando em mais gente, tocando as pessoas, influenciando novos artistas. 

Fiquei em pé o tempo todo na minha mesa, sempre com um livro na mão, fazendo pequenos desenhos como sinal de agradecimento a todos que vieram nos prestigiar. Nesta posição, você facilmente olha as pessoas nos olhos, forjando assim uma cumplicidade, uma ligação com o leitor na sua frente. Da mesma maneira, posso enxergar facilmente o tamanho da fila e todos que estão nela, e vice-versa, assim como vejo e sou visto pelas pessoas que estão passando, trocando olhares, sorrisos, abrindo a guarda e convidando para uma aproximação, mostrando que não sou inacessível, nem somente um nome na capa de seus livros, mas uma pessoa real e que estou ali junto com eles, a algumas dedicatórias de distância. O respeito e carinho do público tem crescido todos os anos e isso nos motiva acontinuar produzindo e participar de eventos como esse, convencidos de que estamos no caminho certo.

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Mas nem tudo são flores na CCXP. A montagem do Artist Alley não pôde ser feita um dia antes da abertura, o que facilitaria muito a vida dos artistas, que são tão expositores como os grandes estúdios e lojas. O horário do evento continua sendo muito longo, vislumbrando receber o maior número de visitantes possível, mas criando uma jornada desumana para os artistas que estão ali o dia inteiro, desenhando, exaustos e famintos. Este ano vimos uma debandada geral do evento por parte das editoras de Quadrinhos – e livros. Havia um estande do grupo Record, um da Marsupial, um da Intrínseca todo decorado homenageando a obra – literária – do Neil Gaiman. A JBC tinha um estande grande, isolado estratégicamente num ponto do evento perto da Anime Experience. A Mythos tinha também um estande. Muito provavelmente devia ter outras editoras que eu nem vi. A Panini também continuou ali, grudada no Artist Alley, e achei que seu estande estava mais organizado que nos anos anteriores. Eles republicaram várias HQs dos convidados internacionais para aproveitar sua presença no evento, o que acho bem inteligente, além de firmarem mais parcerias com autores nacionais, como é o caso da Stout Club com o Xampu 2 e Segredo da Floresta. Infelizmente, a nova edição do Valente, do Vitor Cafaggi, que havia sido prometida, não foi publicada. Uma nova reimpressão do Daytripper também ficou de fora do seus planos. Havia alguns exemplares no seu estande, alguns na Comix e 100 na nossa mesa. Acabaram todos no início de sábado. 

O Quadrinho nacional é formado em grande parte pelos Quadrinistas independentes que encheram o Artist Alley, que aprenderam ao longos dos últimos anos que só depende deles, e o grosso da produção nacional estava bem representado ali, mas um evento deste tamanho não pode querer apresentar o mundo dos Quadrinhos ao público sem a presença das editoras. Elas não são ótimas, nem são a salvação da lavoura do Quadrinho nacional, mas nunca houve um momento tão bom no mercado nacional, com uma variedade tão grande de publicações, seja de clássicos ou de obras modernas. O público que foi ao evento descobriu centenas de autores novos e revistas que ele não encontraria em sua cidade, mas poderia ter descoberto a coleção Moebius publicada pela Nemo, ou o Tintim publicado pela Cia. das Letras. Nem cheguei a ver se tinha Asterix na Record. O heróico Jorge montou o imponente estande da Comix e lá colocou um pouco de tudo, uma amostra de cada editora, bem separado e organizado, mas nada que se compare a um estande próprio, ajudando também na identidade das editoras e sua linha editorial. Um evento deste tamanho não pode ter "um pouco" de editoras, precisa ter muito ou tudo.

Foi anunciado que a CCXP deste ano ficou maior que a SDCC, em San Diego, tanto em tamanho do pavilhão como em público. Uma das grandes diferenças de San Diego para as outras grandes Comic Cons nos Estados Unidos é que você encontra todas as editoras no evento. Grandes, pequenas, alternativas e mainstream, estão todas lá. Os estandes já têm seu espaço certo, seu "endereço" dentro da convenção, e o público sabe onde encontrá-las. Só a Marvel e DC não vendem suas HQs nos seus estandes, resumindo suas atividades a sessões de autógrafos e, cada vez mais, exposições de objetos oriundos dos filmes e séries de TV. Mas estas duas editoras, com os maiores estandes, pertencem a grandes estúdios de cinema, estão ali para enfeitar e perpetuar suas marcas no imaginário do público. Todas outras editoras trazem seus livros, suas publicações e valorizam seus autores. A CCXP não pode se contentar em seguir o formato somente da Marvel e da DC, dos grandes estúdios. 

 

A CCXP é um evento comercial e não há nada de errado com isso. O próprio Artist Alley representa um dos elementos mais comerciais da nossa indústria. Em todas convenções, e essa não é exceção, os artistas estão ali para ganhar dinheiro. Muito mais do que vender revistas, eles podem vender originais, fazer commissions, ganhar muito por um único desenho. Muitos artistas vêem nestes eventos somente isso, uma oportunidade de fazer um trocado – bem bom, por sinal – com alguns desenhos do Batman ou Wolverine. O problema é que isso passa, é descartável, não forma leitores. Não se pode deixar de lado as revistas independentes, as publicações, as histórias. A história é mais importante que o desenho, ela cria os mundos, os personagens que povoam a imaginação dos leitores e preenchem os pavilhões destes eventos. Tanto os artistas como os organizadores do evento não podem esquecer disso.

O sucesso da CCXP é incontestável, mas ela ainda está amadurecendo, evoluindo, procurando seu formato ideal, com erros e acertos. Todo mundo saiu feliz do pavilhão, artistas e público, mas não podemos nos iludir. O evento é uma bolha que não representa a realidade do Quadrinho nacional, mas aponta para o que ele poderia ser. Durante o ano, vamos presenciar o desaparecimento dos autores, os raríssimos lançamentos, todo mundo encasulado até o próximo grande evento. Ano que vem, no entanto, os organizadores vão levar a CCXP pra passear e fazer uma edição em Recife em Abril, para atingir outro público. Em Dezembro, a festa acontece de novo em São Paulo. Com duas edições de CCXP e um FIQ, 2017 promete ser um ano histórico para o Quadrinho nacional. 

Que 2017 seja, então, épico.



Escrito por Gabriel Bá às 13h57
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